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Expresso

A Teoria dos Jogos não serve apenas para Varoufakis

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A decisão de António Costa passa em ter a direita nas mãos ou estar nas mãos da esquerda. O PàF precisa do PS para governar e o PS precisa da esquerda se quiser governar. No cenário de inexistência de maioria absoluta a política passa a ser marcada por negociações, estratégias, compromissos e menos por ideologias, tudo em nome da estabilidade. Os programas eleitorais passam a sofrer do suposto “síndrome da irrevogabilidade de Portas” e tudo passa a ser possível. A CDU fecha os olhos às questões do Euro e o Bloco adia a reunião para uma “melhor preparação técnica”.

Mas preparar o quê? Não é mais que certo que o Bloco não aceita a redução da TSU, a redução de pensões e a facilitação e flexibilização dos despedimentos? Até segunda-feira pouco saberemos se o Bloco abrirá mão destas condições ou se o PS as aceitará totalmente. O que sabemos, certamente, é que ontem, ao adiar a reunião com o PS, Catarina Martins trocou as voltas a António Costa. Ficar para último nas negociações enfraquece o PS e a Coligação, mas fortalece o Bloco.

Quando jogar primeiro traz vantagens

Em muitas situações, há esta noção, quase mítica, que jogar primeiro traz vantagens. Em muitos casos, é verdade. Por exemplo, quando estamos perante a existência de economias de escala em determinado negócio, a empresa que primeiro abrir portas tem a vantagem de impedir que outras o façam e conseguir ganhos monopolísticos. No xadrez, as estatísticas mostram que quem controla as peças brancas possui uma vantagem ao jogar primeiro. No jogo do galo, o primeiro jogador tem uma vantagem enorme: se for racional a jogar, consegue sempre ganhar ou, no mínimo, empatar. Por último, considere-se o famoso jogo, estudado em teoria de jogos, que dá pelo nome de “Batalha dos sexos”. Neste jogo, um homem e uma mulher escolhem onde passar uma tarde. As opções são ir ver um jogo de futebol, que é da preferência masculina, ou um bailado, que é da preferência feminina. (a formulação original do jogo é sexista, embora seja irrelevante do ponto de vista técnico qual a preferência de cada género). Apesar de cada um ter as suas preferências quanto à atividade a realizar, ambos preferem sobretudo passar a tarde juntos. Este é um jogo que se jogado sequencialmente, traz vantagens para quem escolher primeiro, simplesmente porque o segundo jogador abdicará da sua atividade favorita para usufruir da companhia do outro.

Quando quem ri por último, ri melhor

Mas as negociações entre o PS, a CDU, o Bloco e a Coligação PàF não são a batalha dos sexos. Se o objetivo for formar governo, nenhum destes partidos tem a vantagem em negociar primeiro, em lançar sobre a mesa as suas preferências e condições esperando que o PS taxativamente as siga. Ao jogar primeiro, ou seja, ao reunir primeiro, cada partido pouco mais pode fazer do que abrir mão de algumas das suas bandeiras. Foi o que já fez a CDU, fortalecendo assim o PS, nomeadamente na sua capacidade negocial com o PàF.

Os jogos onde jogar primeiro traz vantagens são em geral os jogos onde há, de certa forma, a possibilidade de manipular o adversário. Mas há muitas outras situações onde ficar para último é ficar em primeiro. E foi o que o Bloco fez ao adiar a reunião.

Os jogos onde é preferível jogar em último são aqueles onde deixar jogar o adversário significa obter informação extra, a qual permite por sua vez definir melhor a jogada do último jogador. Por exemplo, imagine que está a escolher um restaurante para almoçar, e que a decisão é entre um restaurante italiano ou um restaurante indiano. Imagine que um seu colega de trabalho, com quem não quer partilhar a companhia durante o almoço, estando por isso disposto até a comer num restaurante que gosta menos, também está a decidir onde almoçar. Neste caso, ao deixar-se ficar para último traz-lhe uma vantagem. Independentemente das suas preferências gastronómicas, irá almoçar onde o seu colega escolheu não o fazer. Sendo assim, a informação da escolha do outro define a sua escolha.

Até agora não é claro se o PS tem uma verdadeira intenção de formar governo à esquerda, ou se as reuniões com a esquerda são apenas estratégicas, servindo para aumentar o poder negocial com a Coligação. Se o Bloco de Esquerda se reunisse com o PS ontem, como previsto, pouco mais poderia fazer do que acreditar nas boas intenções do PS, lançar sobre a mesa o seu compromisso e eventualmente deixar cair por terra algumas bandeiras, à semelhança da CDU. Se assim fosse, o PS sairia fortalecido desta reunião, no caso de este estar apenas a procurar aumentar o seu poder negocial com a coligação, e o Bloco sairia enfraquecido, no sentido em que abdicar de pontos essenciais tem consequências ao nível do eleitorado. Quer se queira, quer não, fugir ao programa é trair eleitores.

Ao adiar a reunião, o Bloco consegue retirar mais informação sobre as intenções do PS, porque entretanto este já se reuniu com a coligação, e, assim, enfraquecer o poder negocial quer do PS, quer da coligação, e proteger-se, revelando a sua solução de compromisso com o PS se e apenas se esta fizer algum sentido. O Bloco é o partido que não só mais cresceu em número de deputados, que não só teve uma das melhores campanhas eleitorais, como está a ser estrategicamente o mais inteligente. Goste-se ou não.