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&conomia à 6ª

Um anúncio de risco

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Joana Amaral Dias, líder do movimento-cidadão Agir, anunciou publicamente que está grávida, e que a sua gravidez, por ser de risco, terá implicações quanto à sua disponibilidade e envolvimento na campanha eleitoral. Anunciou ainda que gozará a respetiva licença de maternidade, tendo de ser por isso substituída por um elemento daquela plataforma política caso venha a ser eleita.

Tenho grande apreço pela Joana Amaral Dias, gosto da sua frontalidade e empenho, e tenho a máxima consideração pelo seu envolvimento na política e em questões de cidadania importantes. E, em geral, vejo com bons olhos esta aproximação da vida pessoal dos políticos ao cidadão comum. Acredito que estes laços de proximidade, que tornam os políticos gente como nós, fazem sentido neste mundo das redes sociais onde a esfera privada e pública cada vez mais se encontram e misturam. Mais, não ponho de modo algum em causa as boas intenções deste anúncio, a necessidade de transparência, clareza e fidelidade entre o movimento Agir e os seus eleitores, como aliás própria o disse. E não concordo nada com os que afirmam que este anúncio pretende intencionalmente capitalizar vantagens nos votos.

Uma crónica de problemas anunciados

Mas este anúncio da gravidez, quase uma crónica de problemas anunciados, deixa de certo modo um sabor amargo. Por muito que se queira acreditar que relativiza e desmistifica o peso da gravidez na carreira profissional de uma mulher, pelo contrário, este anúncio talvez torne evidente e fortaleça o pensamento dominante que dita que uma gravidez é um obstáculo quer na carreira política, quer no mercado de trabalho em geral.

Há que ter presente que a discriminação feminina no mercado de trabalho tem a sua raiz na maternidade e na família. A desigualdade de género, por comparação às desigualdades de classes ou entre raças, foi construída de forma quase inconsciente e sub-repticiamente entre indivíduos que convivem intimamente em relações de afetividade. E é por isso que é uma desigualdade que resiste no tempo, enfeitada por relações de amor e altruísmo. Na família há que cuidar dos filhos e outros familiares dependentes, e este cuidar do outro, quase nunca encarado como trabalho, mas antes como ato de amor e devoção, tem sido, em larga medida, consensualmente delegado à mulher, que se considera ter as características ideais e a disposição natural para tal tarefa. E é desta forma que se criou “naturalmente” uma divisão social e sexual do trabalho. Esta divisão decorre das relações sociais entre os sexos, caracterizada pela atribuição ao homem de competências prioritárias na esfera produtiva e às mulheres a atribuição natural da esfera reprodutiva. As desigualdades na família geram desigualdades na esfera económica e política, desigualdades estas que se repercutem na organização familiar criando um círculo vicioso.

Da desconfiança das capacidades femininas à atribuição do título de super-mulher

Mesmo no seculo XXI, é ainda difícil destruir esta ideia de que a mulher tem o papel principal como cuidadora da família e o homem como o principal provedor de recursos materiais e financeiros. E quando a mulher não abdica de uma carreira profissional e a concilia com a maternidade, a sua disponibilidade para a carreira é vista com desconfiança por parte dos empregadores. Mas quando dá provas de o conseguir, a mulher é encarada como super-mulher, a fazer lembrar a nova personagem da Marvel, a mulher-aranha que, mesmo super-grávida de 8 meses, combate ferozmente o crime. Parece então que uma gravidez exige que a mulher prove ao mundo que consegue acumular tarefas, dormir menos, andar a 100 à hora, cuidar de tudo e de todos e ainda ter sucesso profissionalmente. É esta ideia que nos últimos anos tem passado nos meios de comunicação social. Recordem-se por exemplo, as notícias em 2013, quando Assunção Cristas conciliou a pasta do Ministério da Agricultura e do Ambiente com a gravidez do quarto filho, trabalhando até ao último dia antes do parto.


Se por um lado é bom desmistificar a ideia de que a gravidez é impedimento, é triste que pareça ser ainda necessário fazê-lo. Estamos ainda distantes de uma sociedade onde a maternidade é encarada de uma forma completamente normal e que, a ter impacto na política e no mercado de trabalho, tê-lo-ia da mesma forma para a mãe e para o pai. Para que tal acontecesse, daria um grande contributo igualar o tempo da licença de paternidade ao tempo da licença de maternidade. Só quando esta igualdade nos papéis for natural é que avisos solenes de gravidezes deixarão completamente de existir, ou serão anunciados quer por futuras mães como por futuros pais, de igual forma.

De boas intenções está o inferno cheio

Repito, não duvido das boas intenções de Joana Amaral Dias. Mas esta necessidade de dar a saber aos eleitores o que estes podem esperar quanto ao seu envolvimento na campanha e durante os primeiros meses de maternidade, não legitimará, de certa forma, potenciais empregadores a colocarem às mulheres nas entrevistas de emprego, a célebre questão: “Pensa em engravidar em breve?” E até que ponto não levará as mulheres aceitarem responder naturalmente a esta pergunta discriminatória?

O exacerbar de pequenas probabilidades

Por último, um breve apontamento sobre o facto desta gravidez não ser uma gravidez normal, mas de risco. Sendo assim, estamos mais no domínio de questões de saúde e menos no de estado de graça. E há então quem advogue que dado o nível de restrições que uma gravidez de risco implica, este anúncio tem toda a razão de ser. Mas o facto de a gravidez ser de risco e da comunicação social lhe poder vir a dar grande cobertura poderá criar enviesamentos cognitivos. Ora é sabido que somos muito suscetíveis a estes enviesamentos, como quando exacerbamos a chance de morrer num acidente aéreo por comparação a um acidente de viação sempre que somos confrontados na comunicação social com a notícia da queda de um avião e com o consequente número de mortos, por exemplo. Assim sendo, ou a comunicação social se contém no que respeita ao risco desta gravidez, ou enfrentamos o risco de ter políticos e potenciais empregadores a pensarem, erradamente, que a probabilidade de uma gravidez ser ‘de risco’, é alta.