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CEO: ganham muito ou ganham de mais?

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De acordo com as contas do Diário Económico, os presidentes-executivos (CEO) do PSI 20 ganharam em 2014 cerca de 30 vezes mais do que a média dos trabalhadores. Sendo esta disparidade enorme, ela é bastante menor do que em outros países europeus e nos Estados Unidos, onde alguns CEO chegam a ganhar 500 vezes mais do que a média dos trabalhadores.

É certo que estas diferenças salariais são chocantes e resultam não só das remunerações exorbitantes pagas aos altos cargos administrativos e executivos mas também de uma política de salários baixos, de um salário mínimo reduzido, e da aplicação de contratos precários. Mas uma questão fundamental, para além das questões de justiça e equidade salarial, é saber até que ponto a remuneração dos executivos incentiva o bom desempenho e alinha o interesse pessoal dos administradores e executivos com o interesse dos acionistas, reduzindo assim o chamado ‘problema de agência’.

O problema de agência

O problema de agência coloca-se quando existe uma separação entre a propriedade, a administração e gestão, havendo um conflito entre os interesses dos acionistas, dos gestores, dos credores e dos funcionários. Em suma, o conselho de administração de uma empresa e os executivos deveriam representar os interesses dos principais acionistas, o que nem sempre acontece, protegendo muitas vezes, em vez disso, o interesse de acionistas minoritários.

Aqueles que aplaudem e apoiam um aumento da remuneração dos executivos reconhecem o problema de agência e defendem que são precisos incentivos fortes para aumentar o desempenho e valor das empresas. Estes incentivos incluem sobretudo uma remuneração variável que consiste, em geral, quer numa participação nos lucros, quer numa remuneração por resultados. A participação nos lucros está vinculada ao desempenho macroeconómico de longo-prazo da empresa, enquanto a remuneração por resultados está mais associada ao desempenho de curto-prazo das equipas e dos indivíduos e baseia-se sobretudo num sistema de bónus.

Vulnerabilidade no sistema de incentivos

Mas tem-se verificado em muito casos que a remuneração por resultados tem sido mais generosa do que os resultados em si e que muitas formas de gratificação independentes do desempenho têm adicionado valor à remuneração dos CEO, como por exemplo, vantajosos sistemas de pensões, créditos e bens materiais. Mais, os incentivos de longo-prazo, como as compensações baseadas em “stock options”, ou seja, na aquisição de ações a preço subsidiado, não estão isentos de problemas e incentivos perversos. Por exemplo, os ganhos exorbitantes à custa da manipulação de lucros ou da valorização artificial das ações. Os escândalos financeiros que envolveram a Eron, a WorldCom em 2001 e a crise do subprime em 2007, trouxeram à tona estas e outras vulnerabilidades no sistema de incentivos.

Incentivar não chega, há que monitorizar

É parte integrante do problema de agência não só a implementação de um sistema de incentivos adequado, mas também a monitorização dos agentes. Cabe aos conselhos de administração controlar o trabalho dos executivos e zelar pela estratégia da organização. Como é assumido que em geral o conselho de administração zela pelos interesses dos acionistas, cabe-lhe as decisões relacionadas com a remuneração do CEO e de outros executivos. Mas o conselho de administração tem por vezes incentivos económico-financeiros e não-financeiros para favorecer os executivos.

Fatores financeiros e psicológicos que distorcem a ação dos conselhos de administração

No que respeita a incentivos económicos, destaca-se a reeleição do conselho de administração, onde em muitos casos os CEO têm influência no processo. Para além disso, o CEO e outros executivos têm muito poder sobre os recursos das empresas que podem ser usados para beneficiar membros do conselho de administração. Recorde-se, por exemplo, o caso da Verizon que contribuiu com centenas de milhares de dólares para a National Urban Legue, cujo presidente fazia parte do conselho de administração da própria Verizon.

Em relação a fatores não financeiros, para além das comuns relações de amizade e lealdade entre membros dos conselhos de administração e executivos, destaca-se a possível existência da chamada ‘dissonância cognitiva’, um termo popular na psicologia e na economia comportamental.

Em geral, no nosso quotidiano, sofremos de dissonância cognitiva constantemente. Por exemplo, quando passamos um sinal vermelho e justificamos para nós mesmos que não fizemos nada de errado porque não havia carro nenhum na estrada, ou quando não pagamos algum imposto e justificamos a razão desta fuga com o facto de muitos políticos serem corruptos. Basicamente, significa que sempre que nos deparamos com atitudes que nos causam desconforto emocional e ansiedade inventamos novos pensamentos ou crenças que nos ajudam a reduzir más sensações.

No que respeita à remuneração dos executivos, muitas decisões são tomadas por CEO no ativo ou reformados que beneficiam ou beneficiaram eles próprios de remunerações exorbitantes. Portanto, podem justificar a “necessidade” de manter as remunerações dos executivos extremamente elevadas, acreditando que desta forma estão a satisfazer os interesses dos acionistas. Esta crença permite-lhes não sofrer o desconforto por também beneficiarem, ou terem beneficiado, de incentivos que na realidade não são, ou foram, merecidos.

Os problemas de agência são bastante complexos. Um sistema de incentivos, por muito boas intenções que tenha, tem em geral um lado negro. A remuneração dos CEO e executivos pretende resolver problemas de agência, mas é, muitas vezes, um produto desses mesmos problemas, criando incentivos perversos e distorções. Mais, a excessiva remuneração dos executivos, sobretudo quando não alinhada com os interesses dos acionistas, é um problema que tem raízes no próprio sistema de incentivos aplicado aos membros dos conselhos de administração e na incapacidade destes negociarem e implementarem de uma forma menos enviesada, quer por motivos financeiros, quer por fatores psicológicos, um correto sistema de remuneração para os executivos.