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Expresso

“A vida é a sala de espera da morte”

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Há cerca de 40 mil idosos a viverem sozinhos ou isolados em Portugal, cerca de mais 5 mil do que o ano passado. A estes milhares juntam-se ainda outros tantos que sobrevivem nos hospitais, nas casas de saúde, nos lares e que, apesar de não estarem completamente sós, enfrentam também, na maioria das vezes, uma solidão profunda. E como se a solidão não bastasse, junta-se a ela a pobreza, que resulta da escassez de rendimento e do défice educacional. Portugal tem mais de um milhão e meio de pensionistas com reformas inferiores ao salário mínimo, e cerca de um terço daqueles que têm mais de 65 anos não tem qualquer grau de escolaridade completo. Somos dos países da União Europeia com a maior percentagem de idosos a viverem sozinhos ou isolados e abaixo do limiar de pobreza.

A solidão que salva e que mata

Todos nós, em algum momento da nossa vida, já nos sentimos sós e não há nada de errado com a experiência transitória de solidão. De acordo com teorias evolucionistas, a solidão é funcional, faz parte do nosso sistema de alerta, tal como a sensação de fome, de frio e calor, de outras dores e desconfortos. Deste modo, a solidão é um alerta para uma possível necessidade de mudança, quer na vida profissional, quer pessoal, e para a importância de nos ligarmos àqueles que nos protegem emocionalmente e financeiramente, garantindo assim a sobrevivência e reprodução da espécie humana.

Mas quando a solidão vem para ficar, tornando-se numa situação crónica, em vez de salvar pode matar. Psicólogos da Brigham Young University, nos Estados Unidos, através da análise conjunta de diversos estudos, verificaram que a solidão crónica, percecionada ou real, pode ser mais mortal que a obesidade. Mais especificamente, a solidão aumenta o risco de morte prematura em mais de 14%.

A solidão é um problema social e económico

A solidão crónica conduz a problemas de saúde tais como a depressão, ansiedade, tensão arterial elevada, distúrbios no sono e menor resistência imunitária. Há estudos que indicam, também, que os idosos que sofrem de solidão têm o dobro do risco de desenvolverem a doença de Alzheimer. Mais, a solidão parece também afetar a autonomia dos idosos, reduzindo a sua capacidade para atividades relacionadas com a higiene diária e a alimentação. John Cacioppo, psicólogo da Universidade de Chicago, que tem desenvolvido um largo trabalho nesta área, apresenta um resultado de certa forma chocante: os médicos aparentam prestar melhores cuidados de saúde a pacientes que têm suporte familiar e que não estão socialmente isolados.

Há ainda que salientar que os idosos que nunca se encontram com amigos ou familiares têm mais dificuldades em receber ou prestar ajuda. Confiar nos outros é algo que se aprende com a convivência em sociedade e que se desaprende com situações de isolamento prolongado. O nível de confiança numa sociedade é uma forma de capital social que está positivamente correlacionado o desenvolvimento económico. A nível microeconómico, vários estudos na área da economia experimental têm mostrado que a confiança é um mecanismo que permite chegar a resultados eficientes do ponto de vista económico e social.

A solidão prolongada nos idosos tem consequências negativas no crescimento económico. As pessoas que vivem sozinhas e isoladas entram, muitas vezes, num processo de autoproteção e defesa, tornam-se mais avessas ao risco e menos predispostas ao investimento e ao consumo. O isolamento, tendo efeitos negativos ao nível cognitivo, conduz também a maiores enviesamentos no processo de decisão e a decisões menos racionais do ponto de vista económico.

Combater a solidão nos idosos é uma questão de política pública

Combater a solidão nos idosos não proporciona apenas melhor saúde e bem-estar a este grupo populacional. Por um lado, permite reduzir as despesas públicas com a saúde, por outro, a felicidade dos idosos gera comportamentos económico-sociais, como novos padrões de consumo, que podem trazer consequências positivas para a economia e sociedade como um todo. Mas combater a solidão dos idosos numa sociedade que está cada vez mais envelhecida e só, e onde milhares de jovens adultos emigraram, é um desafio. Há que educar as novas gerações não apenas para a importância de manter relações de solidariedade para com os seus familiares mais velhos, mas também educar para a necessidade de uma solidariedade intergeracional independente dos laços de sangue. Num mundo global, onde tantos jovens emigram, muitos constituindo novas famílias a milhares de quilómetros de distância, há que promover relações de interajuda e reciprocidade indireta.

Nestes últimos anos, temos sido bombardeados com notícias e discursos sobre o envelhecimento populacional, e na sua maioria pela negativa. Em Portugal, a perceção dos idosos como um fardo é maior do quem em muitos outros países europeus, sobretudo naqueles onde os idosos tem mais autonomia, mais participação social, e onde os indicadores de isolamento são menores (de acordo com dados do Eurobarómetro – Intergenerational Solidarity). Há que mudar a perceção dos idosos como sendo pessoas passivas, conservadoras, inflexíveis, com doenças físicas e mentais, que comportam um pesado custo para a economia. É importante representar os idosos como pessoas competentes, sociáveis, autónomas, com conhecimentos e experiências de vida que importam transmitir a gerações mais novas. Esta representação mais positiva poderá fazer com que os idosos adotem esta postura e não vejam a vida que lhes resta como a sala de espera da morte.

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O título deste texto é da autoria da minha avó Silvina Maximiano. Escreveu esta frase entre versos e poemas. Como muitos idosos deste país, vivia há muitos anos sozinha e, embora com o apoio e solidariedade familiar, tinha momentos em que a solidão faziam da vida uma sala de espera. Passou os últimos 11 anos a desenhar, para ela um passatempo, para nós uma relíquia.