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Expresso

O fascínio por prestígio

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Há umas semanas atrás, um amigo meu, em Chicago, adquiriu um telemóvel novo e, para meu espanto, a excitação ao ver o número que lhe tinha sido atribuído foi maior do que ao ver o novo aparelho. Pergunto: “mas não vais manter o número antigo? É sempre um incómodo mudar de número…”. Ele: “este número começa por 312 e o meu outro por 773”. A minha cara de quem não está a perceber nada faz com que ele explique. Ao que parece, existem três indicativos na grande área de Chicago: 312, 773 e 708. O primeiro é o mais antigo, vem dos tempos primórdios da era móvel e, pelo que ele diz, as pessoas que têm esse indicativo são em geral mais abastadas financeiramente e com um maior nível de educação formal (foram as primeiras a fazer uso do telemóvel). Assim, até hoje, o indicativo 312 está associado a um certo estatuto social.

Existe mercado para o estatuto social

Não escondo que a conversa me exaltou, até porque sempre achei esta coisa do prestígio vindo do nada, meio parola. Mas, ao que parece, é mais importante do que a maioria de nós admite ser. O prestígio procura-se e vende-se. A propósito, recordo-me de um post no Facebook, do Miguel Vale de Almeida, Professor de Antropologia no ISCTE, que transcrevo na íntegra (com a sua permissão).

“Uma empresa liga-me a propor um seguro. Digo – e já o faço de propósito – que tenho ADSE. Começa um discurso fabuloso – feito por alguém que não é da empresa, claro, mas que foi instruída para dizer aquilo: que a ADSE cobre cada vez menos, primeiro; que, mais tarde ou mais cedo, “você sabe que a ADSE vai acabar”; e terceiro, e cereja no bolo e novidade: “além do mais, não é muito prestigiante estar sem um seguro privado, não acha? Não é só capitalismo, e tal, é the culture of capitalism.”

A realidade é que, para o bem ou para o mal, de uma forma ou de outra, muitos de nós, senão a maioria, valoriza o prestígio e estatuto social. Num mundo onde o estatuto social está largamente correlacionado com uma melhor posição negocial, com maior influência e poder, com atributos de inteligência muitas vezes vindos do nada, é verdade que, no limite, o estatuto social traz vantagens económicas. Não espanta portanto que seja procurado e se compre. Apesar de tudo, somos racionais e, no fundo, queremos aumentar o nosso bem-estar.

Mas o fascínio pelo estatuto social existe para além de possíveis ganhos monetários. O estatuto social é um bem em si mesmo que dá prazer ou, como dizem os economistas, ‘dá utilidade’. É difícil, contudo, provar esta afirmação através da observação de comportamentos na vida real ou através de questionários. Em particular, é difícil separar na vida real as diferentes motivações pela procura de estatuto social, ou seja, é difícil separar as vantagens económicas que lhe são inerentes do puro fascínio por mais prestígio. É mais fácil fazê-lo no laboratório.

Separar motivações em laboratório

É possível criar em laboratório uma ‘realidade’ onde os indivíduos podem ou não procurar mais prestígio sem que daí tirem qualquer benefício monetário. Foi o que fez Gary Charness, professor de Economia da Universidade de Santa Bárbara, conjuntamente com dois co-autores (1). Na experiência foram criadas de forma aleatória equipas de dois participantes. A cada participante foi pago um montante fixo para decifrar sequências de algarismos através da substituição destes pelas letras do alfabeto. Aos participantes não foi dado qualquer incentivo à produtividade. Antes pelo contrário, foi facultado o acesso a revistas e jornais célebres em várias áreas. No total, foram criadas quatro situações diferentes em laboratório entre as quais os participantes foram distribuídos aleatoriamente. Numa das condições, a chamada ‘condição de controlo’, apesar de jogar em equipa, cada participante foi apenas informado do seu próprio desempenho. Numa segunda condição, cada membro da equipa foi informado se o seu desempenho foi melhor ou pior que o do parceiro, e ao vencedor foi atribuído o símbolo de uma “medalha dourada” e ao perdedor “orelhas de burro”. Na terceira condição, os participantes podiam comprar pontos usando a remuneração fixa que lhes foi paga, permitindo-lhes aumentar artificialmente o seu desempenho. Por último, na quarta condição, os participantes podiam sabotar o parceiro através da compra de pontos para diminuir o desempenho deste.

Os resultados da experiência mostraram que os indivíduos têm melhor desempenho quando sabem a sua posição face ao outro participante. Isto é, esforçam-se mais para ganhar a medalha e evitar as orelhas de burro. Por outras palavras, prémios virtuais sem qualquer valor monetário funcionam. Mais, os indivíduos estão dispostos não só a pagar para aumentar artificialmente o seu desempenho como também para sabotar o desempenho dos outros.

Já o Nobel da Economia, John Harsanyi, o dizia: além do dinheiro, o prestígio social é um enorme incentivo. E para o bem e para o mal. Prémios como um certificado ao melhor empregado do mês tanto podem aumentar a produtividade como levar a situações menos éticas, como por exemplo sabotar o trabalho dos colegas. E em sociedades onde as disparidades sociais são grandes existe uma maior preocupação em atingir determinado estatuto social, havendo por isso maior propensão para comportamentos menos éticos. Mais, em tempos de crise e recessão, a procura pelo prestígio social é ainda maior, e coisas aparentemente tão insignificantes, e algumas bem patéticas, como um indicativo de telefone, um seguro médico que cubra mais uma consulta ao nutricionista, ou uma super-luz no porta-chaves do carro topo de gama, vendem.

(1) Gary Charness, David Masclet, and Marie Claire Villeval (2014). Competitive Preferences and Status as an Incentive: Experimental Evidence, IZA working paper