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Expresso

A racionalidade de uma negligência

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Na semana passada uma mulher caiu a cerca de 15 metros da entrada do hospital do Barreiro e assim ficou, imóvel, cerca de uma hora. Houve quem alertasse os funcionários do hospital, mas no fim foi preciso chamar o INEM que prestou ajuda à vítima e a encaminhou para as urgências onde foi depois atendida.

Este caso triste que está sob investigação para inferir se houve negligência e apurar responsabilidades fez-me recordar um outro caso, bastante mediático, que se passou em Nova Iorque em Junho de 2008, na unidade de psiquiatria do Kings County Hospital Center. Uma mulher, que esperava nas urgências para ser atendida há mais de 24 horas, cai, inanimada. As câmaras do hospital filmam a passividade dos funcionários, seguranças, enfermeiros e médicos. Quando um indivíduo na sala de espera insiste com um funcionário, a mulher recebe então atenção médica, mas tarde demais. Estava já morta. Na sequência deste infeliz incidente, seis funcionários foram despedidos, incluindo um segurança e pessoal hospitalar.

Fechar os olhos ao sofrimento alheio

Estes casos chocam qualquer ser humano com bom senso, empatia e sentido de interajuda. Acredito que a maioria de nós, saudável psiquiatricamente, socialmente capaz e minimamente humano não gosta de ver o outro sofrer e que as pessoas que trabalham no hospital do Barreiro e as do Kings County Hospital, que aparentam ter fechado os olhos ao sofrimento alheio, preferiam que estes pacientes, vítimas do desprezo, tivessem recebido ajuda o mais rapidamente possível. Mas existe uma diferença entre querer que o outro seja ajudado e ajudarmo-lo nós.

Em várias situações onde alguém está em apuros, muitas vezes basta que uma só pessoa ajude para que a situação fique resolvida. Mas a questão é saber quem será alma caridosa que irá despender do seu tempo e esforço, e por vezes incorrer em custos monetários, para ajudar. É importante saber, do ponto vista social, e até por uma questão de intervenção política, qual a probabilidade de alguém em apuros ser ajudado.

Por muito estranho que pareça, estes casos de negligência podem ter um fundamento racional que é contextualizado e explicado pela teoria de jogos, nomeadamente pelo chamado dilema do voluntário. Recentemente, o caso mais mediático explicado através da teoria de jogos foi o processo de sucessivas negociações entre Yanis Varoufakis e o Eurogrupo. Mas qualquer interação estratégica, económica e/ou social, entre dois ou mais indivíduos pode ser analisada à luz da racionalidade da teoria de jogos.

O dilema do voluntário

Para simplificar, assuma que existem apenas dois indivíduos, possíveis voluntários, os quais decidem simultaneamente, e de forma independente, se ajudam ou não alguém em apuros. E assuma que é suficiente que um dos voluntários preste auxílio para que a situação fique resolvida. Os indivíduos preferem que a vítima seja ajudada, mas ajudar implica que o voluntário incorra num custo, o qual se assume não ser suficientemente alto, de tal forma que o benefício líquido de ajudar é maior do que não ajudar. No entanto, a situação mais proveitosa para cada indivíduo é que a vítima seja auxiliada por outra pessoa. Assim, neste jogo, existem três situações possíveis: 1) ninguém ajuda; 2) ambos ajudam; 3) um e apenas um dos indivíduos ajuda. A primeira e a segunda situação não são soluções de equilíbrio do jogo, porque, na primeira, os indivíduos ficariam melhor se ajudassem, e, na segunda, cada indivíduo ficaria melhor se se poupasse ao trabalho de ajudar, já que o outro também decidiu ajudar. A solução (de equilíbrio) deste jogo é que um e apenas um voluntário ajude. Se assumirmos que ambos os jogadores têm as mesmas preferências e o mesmo custo em ajudar, e que decidem aleatoriamente se ajudam ou não, podemos calcular a probabilidade da vítima receber ajuda, que vai depender dos custos e benefícios para os jogadores.

Um facto muito relevante neste jogo é que quando aumentamos o número de potenciais voluntários, a probabilidade da vítima ser ajudada decresce exponencialmente. Mesmo sem cálculos para o provar, é fácil perceber porquê. Num jogo onde os jogadores decidem simultaneamente se ajudam a ‘vítima’ ou não, quanto mais potenciais voluntários existirem, mais cada um dos indivíduos assume que alguém se “chegará à frente”. O problema existe quando todos pensam da mesma maneira.

Há muitas outras situações em que este dilema do voluntário se verifica. Por exemplo, se faltar a luz numa rua inteira, quanto maior a densidade populacional dessa rua, menos provável é que cada indivíduo telefone para a companhia elétrica, dado que assume que muito provavelmente um vizinho já o fez. Outra situação caricata é que o caso de uma avaria na estrada: a probabilidade de alguém parar para ajudar é tanto maior quanto mais deserta for a estrada. Por último, pense também nas vezes que ignorou um pedinte, sobretudo nas ruas atribuladas de uma grande cidade, acreditando que um outro transeunte iria ajudar.

Este dilema do voluntário já foi várias vezes testado em experiências laboratoriais, onde facilmente se controlam custos e benefícios dos participantes, e os resultados são consistentes com a teoria em diferentes partes do mundo.

Episódios em que alguém sofre e morre por falta de ajuda são tristes e muito chocantes sobretudo quando a vítima está rodeada de gente que poderia ajudar. Os funcionários, médicos, ou enfermeiros que não ajudaram, quer a mulher que caiu à porta do hospital do Barreiro, quer a que morreu nas urgências do hospital em Nova Iorque, das duas uma, ou realmente são muito indiferentes ao sofrimento alheio, ou apenas assumiram que um outro colega, uma outra pessoa, iria prestar ajuda. Mas por muito racional que seja a decisão de fechar os olhos à necessidade de ajuda do outro, não custa nada termos presente que esta racionalidade individual pode, em algumas situações, matar. Quanto mais assumimos que alguém que precisa de ajuda será ajudado por outro, o melhor será pensarmos duas vezes.