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Expresso

Não, não vou escrever sobre a Grécia

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Não, não vou escrever sobre a Grécia. Vou escrever sobre o Sporting, que esta semana tem feito tudo certo em termos de marketing. Um “make-over” ao Jorge Jesus, que aparece nas revistas a tratar das madeixas, da pele e das unhas. Muda-se da margem sul para Cascais, o que se coaduna com a imagem mais elitista daquele lado da segunda circular. Mas como agradar a gregos sem agradar a troianos não faz do Sporting um clube do povo, então a aquisição do novo jogador para a equipa de sub-19, o Martunis, o rapaz indonésio sobrevivente ao tsunami de 2004 que foi encontrado envergando a camisola da seleção portuguesa, é obra de mestre. Por muito que me apeteça continuar a escrever sobre o Sporting, a consciência diz-me que tenho de escrever sobre a Grécia.

E de repente a teoria de jogos virou moda
Mas não, não vou escrever sobre a Grécia. Não vou escrever sobre os erros que por aí vi escritos nem corrigir ninguém, apesar de ter ficado com o coração partido com informação que deixa de o ser de tão errada que está. Esta coisa de aplicar a teoria de jogos às negociações entre o governo grego e os seus credores tem algum interesse académico, mas deixa de ter piada quando peca por erros crassos. O suposto jogo entre o governo grego e os credores é um jogo finito, mas sem fim certo. Não existe informação completa, porque no fundo ainda ninguém percebeu quais os resultados finais das várias estratégias, ou seja ninguém sabe ao certo que jogo se está a jogar. Há quem assuma um dilema do prisioneiro, que tem como resultado a não cooperação entre as partes, um resultado que não seria o ótimo social no âmbito deste jogo. Mas há quem modelize a situação como um “chicken game”, que é um jogo que tem vários equilíbrios, no qual uma das partes, e só uma, cede. Mas em jogos dinâmicos, onde o fim não está à vista tudo pode acontecer. Olhar para cada um destes jogos isoladamente e como se fossem jogados uma só vez pouco nos informa sobre o futuro da Grécia e da União Europeia.

Mais, como Yanis Varoufakis escreveu num artigo publicado em Fevereiro no New York Times, ele não considera que esteja a jogar um jogo, mas que esteja a mudar mentalidades e preferências dos parceiros europeus. A ser verdade, deita por terra qualquer aplicação da teoria de jogos tradicional, já que esta pressupõe que as preferências dos jogadores são fixas e o que pode mudar são restrições exógenas. E já agora, onde está a cabeça economista de Yanis?

O efeito de contágio
Mas não, não vou escrever sobre a Grécia. Tinha até planeado escrever sobre o verão e a influência de incentivos monetários na prática de exercício físico ou sobre o novo super-herói da Marvel, a mulher-aranha que aparece super-grávida. Mas cada vez que abro os jornais e vejo colegas, alguns deles amigos, a escreverem e a opinarem sobre a situação atual na Grécia e na União Europeia, hesito. Fazem-se sentir os chamados “peer-effects”, ou seja uma pressão indireta que as escolhas dos meus pares têm sobre as minhas escolhas. E penso nos vários estudos experimentais que mostram que este comportamento de “Maria vai com as outras” é bastante comum. Por exemplo, nas decisões que envolvem incerteza, como acontece nas escolhas de produtos financeiros, existem efeitos de grupo. A interação e partilha de

informação sobre um determinado investimento (seja ele bom ou mau) tem influência nos investimentos feitos por terceiros. Experiências ligadas ao micro-crédito e ao pagamento de empréstimos concedidos mostram que bons pagadores estimulam bons pagadores e maus pagadores estimulam maus pagadores.

Se a Grécia contagiar Portugal, nomeadamente através de uma eventual corrida aos depósitos, e sobretudo se se perspetivar uma saída da Grécia do Euro e a conversão das contas bancárias gregas numa moeda de mais baixo valor, não é claro o que pode acontecer. Por muito pequena que a corrida aos depósitos seja no caso português, pode ter resultados catastróficos. Mais, situações de pânico em períodos eleitorais não têm as melhores consequências, já que os resultados espelham as preferências dos eleitores sob esse estado de pânico mas não fora dele. Veja-se o que acontece com o aumento de votos em partidos nacionalistas e populistas em períodos de crise ou quando existe um ataque terrorista. A eleição do Syriza, por exemplo, terá beneficiado de emoções exacerbadas face às dificuldades impostas pela austeridade. Por muitas diferenças que existam entre portugueses e gregos e entre a sua cultura e a sua história, é de esperar que os nossos credores receiem o efeito de contágio e o resultado das eleições legislativas em Portugal e a quebra do compromisso assumido perante a troika.

A União Europeia não quer a Grécia fora do Euro, mas o Syriza fora das negociações
Se se pode culpar o Syriza por erros nas negociações com os credores, seria injusto culpar o partido pela situação catastrófica em que Grécia se encontra. É certo que nestes últimos meses de negociações se inverteu alguma tendência positiva no crescimento que começara um pouco antes, mas os problemas estruturais, a corrupção, as contas públicas mascaradas, não são culpa deste governo. Mas também é certo que é um governo que incomoda as elites europeias, e que, por muito boas intenções que tenha, mostra ser mais naïve do que realista. Está sozinho sem qualquer apoio dos governantes dos restantes países membros. Resta-lhe o apoio de quem o elegeu. E esse apoio vai a teste no domingo, através de um referendo que a meu ver tem todo o sentido democrático, que é uma decisão racional (que já deveria ter acontecido há meses atrás), mas cuja votação está envolta em emoções e irracionalidades. O apelo ao “sim” do presidente do Comissão Europeia, juntamente com um tom de ameaça em que se insinua que se o “não” ganhar a Grécia estará por sua conta e risco, só criam medo e revolta. O medo sobretudo entre os reformados que se acumulam desesperadamente nas caixas multibanco e a revolta sobretudo entre os mais jovens, que enfrentam um desemprego elevadíssimo e que terá tendência a aumentar com uma política de mais austeridade. A União Europeia e os seus líderes deveriam remeter-se ao silêncio até domingo. Porque se a eleição do Syriza deveu muito a um contexto de grande instabilidade, uma vitória do “sim”, deverá muito a uma instabilidade ainda maior.

Mas não me apetece escrever mais sobre a Grécia. É uma questão que está fortemente polarizada e sobre a qual o único consenso que parece ser possível reunir é este: seja qual for o resultado no próximo domingo, a União Europeia sai deste conflito muito mais fragilizada.