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Do mal, o menos

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No domingo celebrou-se o dia mundial do dador de sangue, um dia que homenageia quem voluntariamente dá de si aos outros, mas também um dia em que se pretende apelar à consciência de todos para a necessidade de sangue nos hospitais. Um dia em que tristemente se relembra que apesar da importância e da facilidade em se ser dador, o número de dadores em Portugal tem vindo a diminuir. Desde 2012 que, a cada ano que passa, o número de dadores reduz-se em cerca de 6%.

Uma crise de altruísmo e cooperação

Como Alexandre Abreu explica muito bem na sua crónica de quarta-feira no Expresso, “Salve-se quem puder”, não podemos somente culpar a crise, a emigração, o envelhecimento da população, os cortes na saúde e nos transportes. Existe uma crise de altruísmo e cooperação, uma degradação da coesão social, uma quebra de confiança e de reciprocidade. Uma sociedade onde cada um de nós está mais virado para si mesmo numa competição por ser melhor que o outro, esquecendo-nos que a cooperação e a interajuda fazem de nós melhores indivíduos.

Não existindo grandes dúvidas que precisamos de mais altruísmo e cooperação na sociedade, existem vidas que não podem esperar. Há por isso que aumentar o número de dadores registados e o número de dádivas de sangue. E a ser verdade que vivemos numa sociedade menos solidária, então será também uma sociedade mais reativa a incentivos. E talvez seja esta uma via, a curto prazo, para garantir as reservas de sangue nos hospitais.

Pagar a dadores de sangue, uma má ideia?

O uso de incentivos para a dádiva de sangue tem sido largamente discutido e implementado em vários países. É certo que não é consensual a implementação de incentivos monetários e a própria Organização Mundial de Saúde aconselha e encoraja que as doações sejam feitas de forma voluntária e que não sejam usadas compensações para os dadores. O motivo para tal diretiva prende-se com o facto de vários estudos mostrarem que o uso de incentivos em atividades que devem ser realizadas por puro altruísmo tem efeitos adversos. Por um lado, o pagamento destrói a motivação intrínseca para doar. Quem o faz por pura generosidade, prefere não ser pago, porque o pagamento implicaria que outros deixassem de percecionar a boa ação como tal. Por outro lado, o uso de incentivos parece atrair dadores menos saudáveis tendo então um efeito negativo na qualidade do sangue.

No entanto, a maioria destes estudos usa questionários que se baseiam em perguntas hipotéticas e que são aplicados de uma forma não aleatória. Um estudo experimental realizado por economistas e publicado na revista "Science" põe em causa estas preocupações e mostra que uso de incentivos tem efeitos positivos quer no número de dadores, quer no número de dádivas de sangue.

Reconhecer a generosidade através de pequenas ofertas

O estudo usou dados de mais de 100.000 dadores em 72 postos de recolha de sangue da Cruz Vermelha Americana no estado de Ohio entre setembro de 2009 e agosto de 2010. Como incentivo, foram usados vales de oferta que foram utilizados em metade dos postos de recolha de sangue. Nos restantes locais de recolha nenhum incentivo foi aplicado.

Os resultados mostram que a oferta de um vale de 5 dólares fez aumentar em 26% a probabilidade de dádiva entre dadores registados e a oferta de um vale de 10 dólares fez aumentar esta probabilidade em 52%. A oferta de vales teve também um efeito positivo em motivar os não dadores. O estudo foi também efetuado na Argentina, Suíça e Itália, sendo os resultados semelhantes.

Estes vales não são diferentes de dinheiro, na medida em que podem ser usados como tal, mas foram anunciados como um presente de agradecimento e não como pagamento, o que fez toda a diferença. Os dadores percecionaram os vales como um reconhecimento da sua generosidade, não destruindo assim a motivação intrínseca para doar.

Por forma a evitar que o incentivo fizesse com que dadores menos saudáveis escondessem a sua história clínica só para receber o vale, os vales foram distribuídos a todos os potenciais dadores que se apresentassem no local de recolha de sangue, independentemente de serem selecionados para doar.

Competir para Cooperar

Para além de incentivos monetários dados de uma forma individual, a recolha de sangue em empresas, universidades e outras organizações, pode beneficiar da competição entre equipas e da atribuição de incentivos para o grupo. Veja-se o exemplo da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos, onde, por vezes, é implementada uma competição entre faculdades no que respeita à recolha de sangue conseguida. Esta competição entre faculdades motiva mais estudantes, professores, e outros trabalhadores a doarem sangue, porque assim estão também a contribuir para que a sua faculdade vença a competição.

É óbvio que existem questões éticas relativas à implementação de incentivos numa atividade altruísta como a doação de sangue. Sem sombra de dúvida, seria bem melhor que os indivíduos o fizessem de uma forma completamente voluntária sem esperar nada em troca. Mas, se no final de contas se garante que não se perdem vidas por falta de sangue e que a qualidade da vida de muitos doentes melhora, então do mal, o menos. N uma sociedade supostamente mais individualista, os incentivos funcionam, mas é preciso saber aplicá-los da melhor forma. E por vezes subtilezas na linguagem fazem toda a diferença.