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&conomia à 6ª

A corrupção veste mais saias ou calças?

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A corrupção desvia recursos, enviesa o processo de decisão, destrói as relações de confiança na sociedade, na política e na economia e é uma das maiores forças de bloqueio para se alcançar uma governação credível e empresas e demais organizações eticamente sustentáveis. Em suma, a corrupção é um fator que impede o desenvolvimento económico.

Infelizmente, as notícias sobre corrupção quer a nível internacional, quer nacional, são uma constante. Esta semana fomos bombardeados com a notícia da detenção de 9 altos dirigentes da FIFA por suspeita de corrupção. Outra notícia chocante foi a da corrupção no hospital de Santa Maria. Como refere o estudo “Valores, qualidade institucional e desenvolvimento em Portugal”, encomendado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, “a Maçonaria, a Opus Dei e a ligação a partidos políticos ainda são três realidades externas que intersetam a esfera do HSM”. Enquanto cidadãos e contribuintes revolta saber que no HSM faltam registos da utilização de equipamentos e que médicos e outros funcionários usam equipamentos e produtos do hospital, que todos pagamos, nas suas clínicas privadas.

É importante avaliar, analisar e combater a existência de corrupção no sector público e privado nas várias esferas da vida social e económica – na saúde, na educação, na cultura, no desporto, etc. Certamente que um Estado menos burocrático com uma regulação eficaz e transparente, que valorize o mérito e implemente sistemas de incentivos eficientes, minimizará a corrupção. Mas é importante perceber a nível microeconómico o comportamento dos indivíduos em relação à corrupção. Por exemplo, quais as características que os leva a corromper o sistema e a ser corrompidos e se existem diferenças de género.

A relação entre o género e a corrupção

três pontos importantes na relação entre género e corrupção. Primeiro, o género pode ter um papel importante na explicação de comportamentos corruptos, no sentido em que podem existir diferenças entre homens e mulheres no que diz respeito à sua disponibilidade e vulnerabilidade para oferecer e receber subornos e participar em relações de reciprocidade menos éticas. Por exemplo, um estudo de Lambsdorff e Fink, baseado em entrevistas a taxistas na Colômbia, mostra que as mulheres polícia parecem ser mais difíceis de subornar do que os seus colegas masculinos. Também um estudo realizado por Swamy e co-autores, com dados para vários países, refere que a existência de mais mulheres no parlamento coincide com menores níveis de corrupção. Um segundo ponto a ter em conta consiste em inferir o impacto que a corrupção pode ter nas medidas que fomentam a igualdade de oportunidades. Assim como vários objetivos políticos e reformas podem ficar comprometidos pela existência de corrupção, também as políticas de igualdade podem ser afetadas por certos tipos de corrupção. Por último, a corrupção pode afetar de forma diferenciada homens e mulheres. Identificar quem sofre mais com a corrupção é importante para implementar medidas que contrabalancem esse facto.

No entanto, dados credíveis sobre o comportamento microeconómico dos agentes no que diz respeito a corrupção e género são difíceis de obter (a corrupção é uma atividade clandestina) e de interpretar. Por exemplo, será que há menos mulheres corruptas porque estas têm uma menor predisposição para a corrupção em comparação aos homens ou apenas porque estão menos representadas em lugares de topo, ficando menos suscetíveis à corrupção? Mais, será que uma sociedade como maior igualdade de género leva a níveis menores de corrupção ou são maiores níveis de corrupção que impedem as mulheres de atingirem os mesmos cargos e direitos que os homens?

A corrupção analisada à luz da economia experimental

Dadas estas dificuldades, as experiências de laboratório e de campo têm ganho popularidade para investigar comportamentos menos éticos, nomeadamente a corrupção. O investigador, neste caso, tem um ambiente controlado. Veja-se, por exemplo, a experiência de campo genial realizada por Armantier e Boly. Nesta, os participantes - cidadãos do Burkina Faso - não sabiam que estavam numa experiência, tendo sido recrutados para corrigir 20 exames. O décimo primeiro exame continha muitos erros, dinheiro e um post-it dizendo: “por favor encontre menos erros no meu exame”. Esta tentativa de suborno teve menos sucesso entre as mulheres apenas quando os participantes estavam a ser monitorizados.

Em geral, os estudos experimentais têm mostrado que as mulheres não são intrinsecamente mais honestas ou mais avessas à corrupção do que os homens, mas reagem mais à existência de mecanismos de deteção. Mais, as mulheres parecem estar menos dispostas a manter relações de confiança e reciprocidade a longo-prazo com sujeitos corruptos, ao passo que os homens mais facilmente se envolvem em atos de reciprocidade positiva, como troca de favores, e de reciprocidade negativa, como seja “dar com a língua nos dentes” quando as coisas não correm como deviam. Sendo a reciprocidade um elemento fundamental ao sucesso da corrupção, mesmo que as mulheres tenham a mesma intenção que os homens em envolver-se em atos corruptos, em geral têm menos sucesso em mantê-los.

Certamente, é necessária mais investigação nesta área, mas até agora os resultados sugerem que uma maior participação feminina em determinados cargos “mata dois coelhos de uma cajadada só”: promove uma maior igualdade de género e reduz a corrupção. Venham assim mais mulheres para ocupar altos cargos na FIFA, nas empresas e no Estado.


Referências: (1) Lambsdorff, J.G. and Fink, H. (2006) Combating Corruption in Colombia: Perceptions and Achievements. Discussion Paper.  (2) Swamy, A., Knack, S., Lee, Y. and Azfar, O. (2001) Gender and corruption. Journal of Development Economics, 64(1): 25–55; (3) Armantier, O. and Boly, A. (2008) Can corruption be studied in the lab? Comparing a field and a lab. Discussion paper.