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Expresso

A influência da religião na economia

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Esta semana foi importante para os católicos e para os cristãos em geral. Foi marcada pelas peregrinações e cerimónias em Fátima e pelo Dia da Ascensão, uma celebração ecuménica comemorada por todos os cristãos e que este ano calhou a 14 de Maio. Tanta religiosidade de uma assentada só fez-me pensar e escrever sobre a influência da religião na economia. Sim, confesso, os economistas metem o bedelho em tudo.

Ao que parece queimaram-se cerca de 29 toneladas de cera entre a manhã de terça e o começo da tarde de 13 de Maio. Os locais para dormir encheram e os comerciantes também não se puderam queixar. Mas o impacto da religião na economia e na ciência económica vai além do turismo religioso e do impulso consumista originado por eventos de culto. Por um lado, a religião tem um papel importante na construção de valores e crenças que podem determinar o comportamento social e económico dos indivíduos. Por outro, a religião leva à constituição de grupos religiosos que têm dinâmicas particulares que geram relações de favoritismo entre os seus membros e geram com frequência relações de conflito e discriminação para com membros de grupos alheios.

A religião e o crescimento económico

A nível macroeconómico tem havido um interesse em perceber a relação entre a religião e o crescimento económico, medido pelo Produto Interno Bruto (PIB), e há estudos que indicam, com dados para vários países, que existe uma correlação negativa entre a prática religiosa, medida pelas vezes que se vai a cerimónias religiosas, e o crescimento do PIB. Por outro lado, parece existir uma correlação positiva entre o acreditar na vida além da morte e o PIB. Outros estudos apontam ainda que países cristãos têm em média um PIB per capita superior a países islâmicos. Há também indicação que a similaridade das crenças religiosas entre países favorece o comércio entre eles.

No entanto, é difícil estudar o impacto da religião nas variáveis macroeconómicas dado que é complicado saber o que causa o quê, isto é, se é o crescimento que altera a religiosidade ou se são as práticas religiosas que têm um efeito no crescimento económico. Mais, a relação entre crescimento e religião pode ser espúria e causada por outras variáveis que influenciam tanto a religião quanto o crescimento económico, como por exemplo fatores geográficos e geopolíticos.

A religião e o comportamento individual

Alternativamente, podemos tentar compreender o impacto da religião na economia em termos microeconómicos, estudando o efeito, quer das crenças religiosas, quer da pertença a grupos religiosos no comportamento pró-social dos indivíduos. Por exemplo, na sua capacidade de perdoar, nos níveis de confiança nos outros, nos níveis de reciprocidade e altruísmo, na honestidade e no oportunismo. Estas dimensões pró-sociais têm efeitos económicos, por exemplo, nos níveis de corrupção, evasão fiscal, trabalho voluntário, nas doações a instituições, na produtividade no trabalho como resposta a um aumento salarial. É verdade que outras ciências socias, como a sociologia e a psicologia, já estudam o impacto da religião em comportamentos sociais, mas usam sobretudo questionários, mas o seu uso, quando em causa está medir comportamentos pró-sociais e morais, não é o mais indicado. Está demonstrado que as pessoas embelezam e enviesam as respostas, sobretudo porque têm vergonha em admitir comportamentos mais egoístas quando pregam o contrário. Usando questionários podemos erradamente inferir que ser religioso implica uma maior preocupação com o bem-estar alheio.

Em vez do uso de questionários é melhor observar o comportamento e as escolhas dos indivíduos. A economia experimental permite isso, ou seja, criar situações nas quais os indivíduos têm incentivo em revelar as suas preferências reais, por exemplo, recebendo um pagamento que depende das escolhas que fazem. Mais, as experiências em ambiente controlado permitem estabelecer relações de casualidade, pois isolam as variáveis a estudar. Dadas estas vantagens, existem já alguns estudos experimentais que exploram o efeito das crenças religiosas e da pertença a grupos religiosos em comportamentos económico-sociais.

Nesta dimensão concreta, os resultados não abonam muito a favor da religião. Em variadas experiências, quando comparamos o comportamento de indivíduos católicos, protestantes, ou que professam outras crenças, com o comportamento de participantes ateus, não existem grandes diferenças, por exemplo, no que respeita à contribuição para bens públicos e em outros jogos de cooperação. O mesmo ocorre nas experiências que medem níveis de confiança entre os indivíduos. Os católicos parecem confiar ligeiramente mais do que ateus, mas as diferenças não são significativas e parece não haver diferenças entre protestantes e ateus. No que respeita à capacidade de doar montantes monetários a outros participantes e a instituições, uma vez mais não existem diferenças entre religiosos e ateus. Mas, se analisarmos o nível de religiosidade medido pela frequência de práticas religiosas, é interessante verificar que quanto maior o fervor religioso, menores as demonstrações de altruísmo e reciprocidade, o que é de certa forma inconsistente com o que apregoam, sem necessariamente criar a estes indivíduos um conflito moral porquanto acreditem na absolvição incondicional. E no que respeita ao favoritismo entre membros de um determinado grupo, este parece existir: os participantes cooperam e confiam mais quando os parceiros professam a mesma crença.

Nos dias que correm, é natural que as igrejas se preocupem com a perda de fiéis. Menos fiéis, menos doações, deixando as instituições numa situação financeira difícil. No entanto, pelo que foi exposto, a perda de fiéis não implica uma crise de valores na sociedade que levaria a uma alteração de comportamentos económico-sociais. Assim, não é então claro qual o impacto da crescente secularização na economia, excetuando talvez uma quebra nas vendas de velas.