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Expresso

O Homo Invisibilis e o Homo Economicus

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Se pudesse escolher um super-poder qual escolheria? Muitos de nós escolheríamos voar ou sermos invisíveis. Enquanto a possibilidade de voar é uma ideia romântica de liberdade que nos acompanha desde a infância, a possibilidade de ser invisível é, sem dúvida, um poder que poderá conferir mais utilidade no sentido económico. Por exemplo, ir ao cinema sempre que apetecer sem pagar bilhete, ou desempenhar tarefas no local de trabalho sem a pressão de estar a ser observado e avaliado durante a execução das mesmas.

Recentemente, uma equipa de cientistas na Suécia criou a sensação de total invisibilidade corporal em 125 participantes numa experiência* e testou os efeitos da perceção de invisibilidade na consciência corporal e social. Num dos testes, verificou que a sensação de invisibilidade reduz o stress e ansiedade sentidos, por exemplo, quando se confronta uma audiência.

A questão da invisibilidade também tem marcado presença na ciência económica, nomeadamente na economia comportamental, e mais precisamente nos estudos relacionados com preferências sociais e morais que têm marcado a agenda de investigação nas últimas duas décadas.

As preferências sociais e morais
Um grande número de experiências laboratoriais e de campo tem mostrado que os indivíduos não estão apenas focados em maximizar o seu próprio bem-estar ou utilidade ignorando o bem-estar alheio. Muitos fazem escolhas altruístas, mais justas, cooperativas e recíprocas. Há evidência empírica, por exemplo, de relações de reciprocidade em contexto laboral. Nomeadamente, indivíduos no papel de trabalhadores, esforçam-se mais em resposta a aumentos salariais na componente fixa. Mais recentemente, várias experiências têm também demonstrado que os indivíduos têm preferências morais. Por exemplo, têm aversão à mentira, o que contrasta com os pressupostos da economia clássica, que assume que os indivíduos mentem sempre que os benefícios forem maiores que os custos.

Os resultados que apontam que indivíduos não são totalmente egoístas e amorais tem relevância na modelização e análise da evasão fiscal, no tipo de contratos de trabalho, na necessidade de mais ou menos incentivos, na provisão de bens públicos, nas doações para instituições de caridade e associações sem fins lucrativos.

A invisibilidade e a alteração de comportamentos
Mas nem tudo o que parece é. Nomeadamente, as preocupações socias e morais que os indivíduos demonstram ter nas escolhas que fazem dependem do ‘grau de invisibilidade’ para os outros participantes e para quem está a conduzir as experiências. Apesar do anonimato entre participantes ser garantido, o anonimato entre investigador e participante é muitas vezes difícil de garantir. Mas tornar o participante “invisível” é importante para inferir as reais motivações dos indivíduos. Mais especificamente, perceber, por exemplo, se os participantes nas experiências doam dinheiro a estranhos porque têm uma preocupação pela equidade ou apenas para serem bem vistos aos olhos do próprio investigador. Ou, na mesma linha, se são realmente avessos à mentira ou têm “apenas” receio e/ou vergonha de serem apanhados a mentir.

A evidência empírica aponta que quanto mais invisíveis os participantes forem mais estes se comportam como o Homo Economicus, isto é, maximizando o seu bem-estar em detrimento do bem-estar alheio. Ou seja, doam menos dinheiro a instituições e a outros participantes, mentem mais se isso lhes trouxer benefícios monetários, cooperam menos, e são menos recíprocos. Em geral, são menos emotivos e mais racionais. No entanto, quando podem punir outros participantes por falta de cooperação, nomeadamente no contexto de contribuições para a provisão de bens públicos, ser invisível leva os participantes a serem mais “explosivos” castigando mais quem é menos cooperante através da imposição de coimas de forma anónima.

Infelizmente, a monitorização das nossas ações no dia-a-dia, quer no local de trabalho, quer em espaços públicos ou em espaços comerciais, dificilmente irá diminuir. Seria bom bastar confiar nas boas intenções da espécie humana, mas o poder da invisibilidade é demasiadamente tentador e potencialmente perigoso.

* Guterstam, A., Abdulkarim, Z., Ehrsson, H. (2015). Illusory ownership of an invisible body reduces autonomic and subjective social anxiety responses. Scientific Reports, 5. Article number:9831