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Um Algarve de e para todos

Nuno Miguel Lopes da Silva, Mestrando de Marketing da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve

A frase soou como um trovão. No auge do mês de Agosto, duas senhoras, numa cidade algarvia de forte pendor turístico, e perante uma multidão de pessoas e carros que obstruíam as vias de acesso, censuravam: "nunca mais vem uma trovoada para que esta gente se vá embora".

Ora, numa região que, em 2008, liderou os proveitos por estabelecimentos hoteleiros, com 580 milhões de euros, num sector económico que obteve o ano passado receitas totais de 7.500 milhões de euros (dados do Turismo de Portugal), e onde, por consequência, os residentes, de uma forma directa ou indirecta, dependem dessa industria, a frase é bastante perigosa e até incoerente.

Todavia, estes desabafos, comuns durante os meses mais agitados, não colocam em causa uma das características que mais nos distingue, isto é, o saber receber, nem tão pouco, indiciam alguma ideia de separatismo geográfico. São antes, uma crítica explícita aos anos sucessivos em que imperou uma ausência de rigor no planeamento urbanístico e que obrigam hoje, os lugares mais turísticos, a uma flexibilidade quase impossível, devido ao facto de um aumento exponencial de residentes, o que naturalmente gera incómodos.

A resposta a este problema, com certeza, não será a vinda da dita trovoada. Mas terá de passar pelo planeamento de um novo Algarve, ainda mais capaz de incluir todos, sejam os visitantes ou visitados, criando condições para uma coexistência mais proveitosa, de preferência não apenas residual, mas distribuída ao longo do ano.

O Algarve enferma de vários problemas. Conforme a análise feita no Plano Estratégico Nacional do Turismo que define as acções para o crescimento sustentado do Turismo Nacional nos próximos dez anos, esta região é, essencialmente, um destino de Sol e Mar, o que tem como consequência uma elevada sazonalidade (taxa de ocupação de 64% nos meses de Verão, com o pico a verificar-se em Agosto, com uma taxa de ocupação de 76% e uma taxa de ocupação de 20% nos meses de Inverno).

Numa altura em que se discute cada vez mais a importância dos lugares e as vantagens das especificações históricas, sociais ou políticas de cada um, importa, por isso, olhar para o Algarve e para os algarvios com alguma atenção, evitando criar desfasamentos que não interessam, ao invés de uma complementaridade que é desejável.

O projecto Allgarve tem espírito. Compreendo-o se mo explicarem enquanto garantia para incluir esta região na senda de um lugar com glamour, aberto a uma panóplia de cultura e capaz de seduzir um certo público com vocações e interesses muito próprios.

Todavia, há um outro Algarve que não pode ficar menosprezado. Falo de um conjunto largo de cidadãos que não conseguem frequentar esses meios, que residem cá durante o ano inteiro e que merecem uma política de medidas próprias que elevem a qualidade de vida nesta região, aliando todos os eventos, não os fazendo sentir à parte e encontrando um equilíbrio necessário.

Não tenham dúvidas. O Algarve continua apelativo e irá continuar a sê-lo, desde que consiga superar todos os desafios da modernidade que se lhe exigirão a muito breve prazo. Estes passam pela consolidação de dez produtos turísticos estratégicos: Sol e Mar, Touring Cultural e Paisagístico, City Break, Turismo de Negócios, Turismo de Natureza, Turismo Náutico (inclui os Cruzeiros), Saúde e Bem-estar, Golfe, Resorts Integrados e Turismo Residencial, e Gastronomia e Vinhos.

Para todos eles temos resposta, desde que os responsáveis políticos que enfrentarão esses desafios, seja no plano local/regional ou a nível do governo central, consigam entender e projectar um conjunto de medidas que nos tragam um reforço de complementaridade, para ir ao encontro de um Algarve inclusivo e capaz de responder às expectativas diferentes de cada um.

Aos problemas detectados no mesmo Plano Estratégico Nacional de Turismo, que, entre outros pontos, indica a dependência sazonal da região e que foca a necessidade de uma requalificação hoteleira, falta pensar um Algarve que tenha em conta o que as pessoas que andam na rua, no dia a dia, sentem, promovendo a sua opinião e manifestando interesse pelas mesmas.

O marketing dos lugares e asseveração de um conjunto de branding commodities não funciona se não conseguirmos projectar a imagem de uma consciência social (que já existe mas que tem de ser aperfeiçoada), que garanta à partida o empenho de todos face à missão principal da região, sabedoria que aproveitará melhor ainda as vantagens estratégicas que temos e das quais nos orgulhamos.

Esse patamar é, aliás, fundamental para projectarmos positivamente esta região num quadro de uma concorrência feroz, reafirmando-a como um ponto turístico de referência mundial.

Não tenho dúvida nenhuma que todos querem o mesmo, isto é, um Algarve forte, com condições para todos e capaz de continuar a liderar e transformar em realidade todos os nossos sonhos, dos quais não abdicamos. A trovoada, essa, pode certamente esperar pelo Inverno, quando for o tempo natural para as mesmas.

Clique na imagem para visitar o site da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve

Este texto é da inteira responsabilidade do autor e da entidade representada.