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A caminho de uma grande depressão

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Maria Luísa Vasconcelos, Professora da Universidade Fernando Pessoa

No melhor dos cenários, sem rutura de paradigma, agora sim, estamos a caminho de uma grande depressão. Tudo indica que o referendo grego, caso venha de facto a ser realizado, rejeitará o plano europeu de redução da dívida pública grega para 120% do produto interno bruto lá para 2020. Com efeito, ao que parece, vários planos de austeridade passados, esforçados e castigadores, o povo grego (há quem diga que parte das forças armadas) não está mais disponível para programas que medem o êxito em dívida ao invés de crescimento e emprego e esperança.

Mas estranho mais que os portugueses não entendam o povo grego, do que o povo grego não entenda as responsabilidades (e por isso os sacrifícios) lhe são imputados. Afinal, após décadas de um endividamento irresponsável que interessou a todos, beneficiando de uma desregulação interessada (e interesseira) dos mercados financeiros, coloca-se agora a defesa desses mercados à frente de políticas de crescimento. Há um argumento deveras de peso na defesa desta opção: os mercados financeiros são o suporte de financiamento das atividades produtivas nas economias de mercado; defaults e insolvências encadeadas implodiriam o sistema tal como o conhecemos, com prejuízo severo para as economias e, por isso, para os cidadãos.

Há contudo, um outro argumento que sustenta a revolta das populações. De forma a garantir retornos substanciais e crescentes, os mercados financeiros desenvolveram de tal forma os seus produtos, complexificaram de tal forma os seus derivados, disfarçaram de tal forma os riscos encadeados, que o seu impacto na economia vai bem além do tradicional financiamento das atividades.

Os mercados financeiros têm uma vida própria, bem distante do propósito de alavancar o crescimento dos sistemas económicos. "Investidores" privados, institucionais e públicos progressivamente cederam à tentação de retornos elevados associados a níveis de endividamento que não deveriam ter sido autorizados. Disseram: Pagam "amanhã". E se há risco de poderem vir a não pagar, empresta-se na mesma a um juro cada vez mais e mais elevado.

E chegados à vertigem do incumprimento, ainda assim não pararam de emprestar. Antes passaram o risco a terceiros, através de um mecanismo de seguros, também eles muito caros, e por isso também muito interessantes. Disseram-nos: a responsabilidade é das finanças públicas, do incumprimento do pacto de estabilidade. Como se fossem os défices, mais do que justificáveis em significativas baixas de ciclo (o próprio Pacto o reconhece!), os culpáveis pela irresponsabilidade, pela ganância, ou pela disfunção dos mercados. Como se em Portugal ou na Grécia uma política keynesiana moderada e anticíclica tenha sido, salvo em raros momentos, corretamente utilizada. E com tudo o que nos disseram, e ainda dizem, os mercados regozijaram.

Assim, não encontro diferença substancial entre o subprime e a crise das dívidas soberanas, sobretudo depois dos resultados da última cimeira europeia. Repetem-se os mesmos mecanismos, os mesmos erros: endividamento excessivo suportado por uma espécie de linhas seguradoras, estas últimas garantidas pela base da zona euro, assim transformada em gigante doente e com pés de barro.

Hoje, a opção continua a ser pela defesa dos mercados financeiros, com o argumento vicioso de que sem eles, as economias irão colapsar. Sem uma rutura de paradigma, é verdade que sim.

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Este texto é da inteira responsabilidade do autor e da entidade representada.