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Expresso

Alemanha e Portugal, inflação dá juros

Não foi desta, mas estamos perigosamente perto. Inflação, acima das expectativas dos analistas, na Alemanha contribuiu para a subida dos juros da dívida portuguesa, a 10 anos os juros, no mercado secundário, ultrapassaram esta quinta-feira os 4% e lá permanecem.

Vamos por partes. Portugal é uma pequena economia aberta que se insere numa economia global mais vasta. Sim, há algum paralelismo com o efeito borboleta, desta feita não envolveu o bater de asas de uma borboleta no Brasil como causa de um tornado no Texas. Neste caso o que temos, fruto de uma inflação alemã mais robusta, é um reajustar das rendibilidades pretendidas por quem investe (outros dirão especula) em dívida pública. Temos assim uma amplificação do efeito da subida diminuta dos juros na dívida alemã para a portuguesa, pois a nossa dívida da República é percebida, pelos investidores (os mui célebres “mercados”), como mais frágil fruto de uma condição económica mais vulnerável, entre outros factores pelo elevado peso da dívida pública face ao nosso PIB, que não cresce tanto quanto deveria para o nosso nível de dívida.

De 4% a 7% vão três pontos percentuais de diferença. Ficou para a posteridade a meta de Fernando Teixeira dos Santos, Ministro das Finanças do então Governo Sócrates. Lembram-se? Mera coincidência ou não, quando o mar está revolto e incerto, não podemos assobiar para o lado, nem enfrentar as vagas altas imprudentemente. Cuidado com os icebergs, que diabo (não é trocadilho), afinal até nos tiraram o filme do Titanic do imaginário, parece que não foram os icebergs que levaram ao fundo o mais famoso navio de cruzeiros da história.

De volta a matéria de facto, a Europa vive uma situação inédita no que diz respeito às suas taxas de juro. Paralelamente a esta política de taxas de juro de 0%, ajudando os bancos a ir buscar dinheiro ao Banco Central sem encargos de maior, existe hoje uma rede de proteção adicional com o Banco Central Europeu a comprar dívida soberana, uma sombra pequena do que fez a Reserva Federal (Fed) é certo. Estas circunstâncias favoráveis aos devedores, sobretudo os muito endividados, não são eternas. Ainda é cedo para sabermos se estamos perante um ponto de viragem, mas a Fed já fala em subida de juros o que terá necessariamente repercussões no resto da economia mundial, nomeadamente na Europa.

Aqui está o ponto. E o ponto foi bem identificado pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Entre mergulhos e afectos, o aviso ficou na Mensagem de Ano Novo. Portugal tem que crescer.

Sabemos que o mundo está em polvorosa com a entrada em cena do Presidente eleito Donald Trump. Sabemos que a Alemanha viu os seus preços crescerem perto de 1,7%, longe de ser uma espiral inflacionista, e o quão intolerantes os alemães são quanto à inflação. Contudo sabemos adicionalmente que a frente interna continua também a ser incerta. Não pensem que a novela da Caixa Geral de Depósitos e a sua recapitalização fica apenas cá pelo burgo. Não pensem que os adiamentos e as ofertas pelo Novo Banco são apenas uma discussão na nossa praça pública. Não pensem que a linha seguida pelo actual Governo não é alvo de cuidadas e atentas análises externas da troika aos “mercados”. Lá está. Mundo global, mundo informado. Se é sabido que a inflação sobe na Alemanha, também sabem bem o que se passa em Portugal.

Todavia esta interdependência europeia é algo de natural e necessariamente consequência do processo de integração. Foi assim sonhado, apesar de carecer de melhor implementação e de melhores intérpretes.

Ainda na passada semana tive oportunidade de visitar Berlim. Um clima horrível, mas uma cidade vibrante e pujante. Indústria, gente na rua, comércio e actividade. Respeitadores e cumpridores. Mesmo que não venha nenhum carro, é inimaginável ver os locais a passar a estrada, com o semáforo dos peões no encarnado. Cada um cumpre o seu horário. E nem mais ou menos um minuto. Estão na rua bem cedo, via-se o movimento dos ciclos laborais, as pessoas a saírem dos seus trabalhos, sobretudo em zonas de mais escritórios, entre as 4 e 5 da tarde. Nos cafés, restaurantes, até no aeroporto, estava eu a fazer o check-in e quem fazia a vigilância olhou para o relógio e disse, o turno terminou, vou sair. São outras culturas. Mais impessoais, mas mais produtivas. Porventura mais eficazes. Se calhar, também por aqui se vê a diferença abismal de resultados entre Portugal e a Alemanha. É na produtividade e na capacidade de potenciar e não desperdiçar recursos e energias que está o ganho. É também por aqui que podemos dar a volta ao crescimento económico e aos défices crónicos, logo às taxas de juro. Já que estamos tão sensíveis aos efeitos de lá, que venham os melhores exemplos e as melhores práticas, mas deixem-nos o bom tempo e a nossa saborosa gastronomia.