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Expresso

Falta de castigo

Universidade Católica: vestir a preceito

O magnífico reitor da Universidade Católica não devia exagerar nesta brutal repressão sobre a forma de vestir e calçar dos seus jovens estudantes, docentes e empregados.

A Universidade Católica (UCP) quer que professores, funcionários e alunos, na sua sede em Lisboa, se apresentem com "formas de vestuário dignas e convenientes, adequadas ao local de trabalho próprio de uma universidade e de uma instituição da Igreja".

Acho mal. Nos centros regionais da universidade, no Porto, Braga e Viseu, tal orientação não é imposta. Uma aluna da UCP de Lisboa, pode sair em "tenue de soirée" da capital, e apresentar-se no campus de Viseu em apropriado soutien e fio dental. Aqui ministra-se o curso de medicina dentária.  

Ainda ontem fui matricular a minha filha. No interior do estabelecimento de ensino, estava um aluno de boné, na cabeça com a pala para trás, a proteger o pescoço. Não houve, e bem, um reparo. Ninguém reparou - a mãe do menino, os professores, os funcionários presentes - que o sol só incidia, na penumbra da sala de aula, na cabeça iluminada do menino de 15 anos. Há meninos que irradiam muita luz e não menos boa educação.

Já vi, à porta da mesma escola, outro menino da mesma idade, em tronco nu, a fazer peitos peludos ao segurança. Este não reparou que o adolescente, não estando rapadinho, não deveria ser metro-sexual.Numa escola secundária, um professor nada católico obrigou um aluno que ostentava "FUCK YOU" na tshirt, a despi-la e a vesti-la virada do avesso, se quisesse assistir à aula. O aluno lá foi ao WC revestir-se. Revestido de contrariedades, passou literalmente a aula a ser auto-fornicado, na língua de Shakespeare e com o "FUCK YOU" coladinho à pele, embora a matéria dada fosse Literatura Portuguesa. Não se fazem maldades destas a aum aluno tão probo.

Já vi, noutras escolas, professores em serviço de vigilância de exames, em havaianas brasileiras e calções curtos. Aqui só se lamenta que estes docentes, homens do sexo masculino, não tenham ousado uma depilação a laser. No desempenho profissional na área do lazer, como são os exames, deve exigir-se corpinho acabado de sair de spa, e apoio de calista, para conveniente disfarce de calosidades, joanetes e, no mínimo, entre-unhas asséptico.

Já vi uma professora, a coordenar exames, a deslocar-se descalça pelos corredores da escola, para não incomodar examinandos concentrados. Prova acabada, a docente tinha as solas dos pés imaculadamente pretas. Foi o chamado concentrado de porcaria que teve de ser limpo a aguarrás.  

O magnífico reitor da UCP não devia exagerar nesta brutal repressão sobre a forma de vestir e calçar dos seus jovens estudantes, docentes e empregados. Quem não gosta de ver um monte de Vénus virginal a espreitar de uas calças descaídas? 

Os meninos e as meninas têm corpinhos gentis, esbrazeados. Precisam, no Verão, de usar trajes menores, mais leves e frescos. Os trajes, evidentemente. E precisam, sobretudo, de mostrar a verdadeira arte corporal, lapidada indelevelmente nos seus corpinhos jovens, tatuagens, piercings, cover-ups.

Os professores e funcionários, mais pesados, nem por isso. Mas todos, os que acompanham o progresso da Educação, têm o direito de conhecer o que se esconde debaixo de uma camisa engravatada ou de um fato de linho opaco, usado por um docente ousado ou por um funcionário ilustrado. Pode estar inscrito, num corpo amadurecido pelos anos, alguma imagem tatuada de Belzebu, o que é blasfémia numa instituição católica.

O magnífico reitor da Universidade Católica - que não deve ter coragem de exibir o seu piercingzinho do umbigo (que eu nunca vi e acredito mesmo que não exista), - não impeça que a verdadeira arte contemporânea circule airosamente pelos corredores da sede da UCP.

Que diabo!? Sempre fomos artistas ambulantes, saltimbancos da tolerância. Sempre tivemos brandos costumes. Haja liberdade! Por amor de Deus! Até porque uma pungente imagem de Cristo pode aparecer crucificada no colo ardente de uma boa aluna da UCP. E depois?