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Falta de castigo

Não pagar é legítimo

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José Alberto Quaresma (www.expresso.pt)

Dois terços dos estudantes a viver nas residências universitárias da Universidade do Algarve, têm rendas em atraso. A dívida já ultrapassa os 30 mil euros. A maioria desses alunos, 221, é constituída por bolseiros. É a situação mais grave a nível nacional.

Não conhecemos os jovens. Vivemos tempos em que os números contam tudo e as pessoas nada. Sabemos que o número de alunos cresceu exponencialmente nas universidades após Abril numa caminhada, muito atrasada, para níveis que os países desenvolvidos europeus tinham atingido há muito.

Nestes dias, em Portugal assistimos a recordes de abandono no ensino superior e até, o inadmissível, situações de fome entre a população estudantil.

Não sabemos se, pelo buraco do estômago destes desvalidos, passam umas imperiais ou uns "shots", ou se falta algum trocado para carregar o telemóvel. Situações que podem acontecer até porque, não raro, um estudante é fisiologicamente mais propenso  a sentir mais a sede do que a fome.

Mas não é fantasia que a brutal política de austeridade tem despachado muitas famílias para o desemprego, que a classe média vai minguando à força toda, e que a ambição suprema da governação continua a ser engordar parceiros público-privados e emagrecer governados.

Um exército de proletários desempregados, e sem direito a subsídio, é quase o paraíso para o equilíbrio orçamental. Com um ou outro pequeno senão. Não entra IRS, nem IVA para os cofres do Estado, com o consumo em queda vertiginosa. As receitas do Estado, que o iluminado e sensível Gaspar acreditava que crescessem com o aumento dos impostos, das portagens, etc., estão a mirrar e a meta sagrada do défice é uma miragem. 

Cada vez mais famílias não conseguem suportar os custos de um filho na universidade. A maior parte das câmaras municipais, que levam uma eternidade para pagar a fornecedores, vão eximir-se à atribuição de bolsas de estudo. Como muitos institutos públicos ou privados, já o fazem.

Assistimos à cupidez do Estado a sacar impiedosamente o que pode e o que não deve. E a pagar tarde e, quando o faz, o muito que deve a particulares, advogados em defesas oficiosas obrigatórias, a empresas. E a passar a mensagem indecorosa: não pagar é legítimo.

Os estudantes algarvios porque não querem, não têm, ou não podem, conquistaram um direito que se está a tornar universal na sociedade portuguesa - ficar a dever. Irão continuar a ter sucesso até ao desalojamento compulsivo ou ao abandono escolar.

Mas haverá sempre um ou outro país, distante, a piscar o olho a um emigrante sem qualificações.