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Falta de castigo

LLoret de Mar

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José A. Quaresma (www.expresso.pt)

A experiência de Lloret enriquece nada, porque ali há nada. Minto. Há apartamentos, hotéis, bares, discotecas, que estariam devolutos não fosse a imberbe alma lusa. E há música electrónica, álcool, "chamon", sexo, desvario à solta.

A estância de turismo Lloret de Mar, na Catalunha espanhola, é bem conhecida de dezenas de milhar de jovens portugueses que todos os anos na Páscoa partem em romaria. Não entram na Isglesia Parroquial de Sant Romà para pagar promessas. Vão fazer uma espécie de via sacra pagã. Quem paga é a família. Às vezes algumas câmaras municipais, muito ou pouco endividadas, dão uma ajudinha à despesa.

A via sacra não é, para a maioria deles, mais do que um noviciado intensivo, em álcoois, pedras, ácidos, bases, sais. Ao contrário dos peregrinos, os álcoois são bem graduados. As pedras batem forte sem necessidade de fisga. Os ácidos são bem compostos em balanças de precisão. E se se ouve lá em casa "não sais para Lloret", da parte de pais assertivos, há drama de baba e ranho para finalista.

E o drama real é que, volta e meia, há mesmo finalistas. Acabam ali, à beira do Mediterrâneo, a viagem da sua vida. Foi o que aconteceu agora ao Vítor Mota, de 17 anos.

Não sabemos se foi acidente ou suicídio. O que sabemos - e pais, educadores ignoram, ou fingem ignorar, há muito - é que, e por esta ordem, aquelas são as primeiras causas de morte na adolescência.

Antes de terem conhecimento se terminam com sucesso o 12º ano, para prosseguirem estudos superiores ou entrarem no mundo do desemprego, os progenitores já lhe garantem um prémio. E com a aquiescência das escolas. Na esmagadora maioria dos casos, curada a ressaca e o estafanço, o prémio não é gordo. Mas foi divertido.

A experiência enriquece nada, porque ali há nada. Minto. Há apartamentos, hotéis, bares, discotecas, que estariam devolutos não fosse a imberbe alma lusa. E há música electrónica, álcool, "chamon", sexo, desvario à solta. Também deve haver bandos de jovens menos fogosos.

Barcelona, que está perto, não deixa de ser um tédio para gente novíssima que não vem de longe para ver, à pressa, um museu, uma catedral, ou um qualquer mono saído do lápis de Antoni Gaudi. Não há pachorra.

Em Lloret nunca sai a sorte grande. E infelizmente, não raro, sai o azar grande, voo incidental ou acidental de um 5º andar qualquer para o vazio.Muitos pais alegremente empenham coiro e cabelo para custear o devaneio. E, como agora em Castro Verde, o vazio ali fica num quarto onde dormia e estudava um filho que não terá futuro.

Não é fácil entender várias coisas. A maior parte dos jovens vão entregues a si próprios sem professores a acompanhá-los. E devidamente aprovisionados para estarem uma semana a beber até ao intestino, regurgitar, ouvir música tonitruante, engolir o que lhes agitar a mona até ao mais recôndito neurónio.

Aos 17 anos, ou menos, um jovem não tem maturidade psicológica e emocional para recusar excessos, sobretudo quando é o grupo a pressioná-lo. Dificilmente é capaz de dizer não a delírios.

E, não poucos, gostam de roçar a imortalidade. Sobretudo se tiverem quem assista e aplauda ébrios arrojos. Às vezes conseguem.

Para o ano há mais. E gente ávida de manchetes embebidas em sangue. Lloret de Mar vende na época baixa, no mínimo, notícias tristes.