Siga-nos

Perfil

Expresso

Museus da Politécnica

Grand Canyon e a Arte

Luis Azevedo Rodrigues

É socialmente reprovável cometer um deslize na História ou Literatura; mas é desculpável se se afirmar que no Marão existem pegadas de dinossáurio. Ou que o Jurássico é um título de um filme.

É lugar comum em conversas de café discutir-se pintura, música, literatura ou história. Emitem-se opiniões e confrontam-se gostos. Não se confundem tendências artísticas nem épocas históricas; arrumam-se os vários artistas nos movimentos e séculos respectivos. Beethoven foi influenciado na sua obra pelo papel histórico e social de Napoleão Bonaparte e não por Átila, o Huno. Picasso, apesar de o poder ter feito (como seria?), não pintou o tecto da Capela Sistina. Os Medici não patrocinaram a obra literária de Samuel Beckett. São exemplos, que roçando o absurdo, ilustram que a literacia artística e a histórica tem um papel nos actos sociais.

O mesmo não acontece com a literacia científica. É socialmente reprovável se alguém comete um dos deslizes atrás mencionados; mas é desculpável se se afirmar que no Marão existem pegadas de dinossáurio. Ou que o Jurássico é um título de um filme. Ou, ainda, que o Homem é o píncaro da Evolução. As obras de arte exercem em nós o despertar de emoções mas queremos sempre complementá-las com um background de conhecimento (quem fez, quando fez, etc.). As duas componentes completam-se, permitindo o desfrutar de mais completo da Obra. Ou não, dirão alguns puristas... Utilizo duas realidades - obra de Arte vs Paisagem Natural - para sublinhar que a Cultura Científica, em geral, e a História Natural, em particular, não têm uma tão forte influência como outras áreas do conhecimento. Nunca fui ao Grand Canyon. No filme homónimo de Lawrence Kasdan, aquele é utilizado como a manifestação telúrica da insignificância do Homem, temporal e física. Devido à minha formação científica e vivência pessoal, reconheço que essa maravilha da morfologia geológica tem um efeito tremendo em quem a observa pela primeira vez. Qualquer um, diante daquele enorme desfiladeiro, sente que tudo é relativo. Insignificante. E gosta do que vê. E não esquece. Apesar do inquestionável prazer, provavelmente é "apenas" o fruir dos sentidos, não sendo mais completa a experiência devido à iliteracia científica do que se vê. Se o turista souber que as centenas de metros de altura de rochas que observa foram o resultado de milhões de anos de sedimentação geológica talvez o efeito seja diferente. Se souber que os sulcos quilométricos que ornamentam o grande desfiladeiro são o resultado da lenta erosão levada a cabo pelo rio Colorado ao longo de milhões de anos, talvez o deslumbramento fosse maior. Para apreciar algo de belo não é fundamental conhecer como se chegou até ele mas que ajuda o prazer, ajuda! O gozo que algumas obras de arte nos dão poderão não necessitar da Teoria; mas sem ela não a aproveitaremos por completo, ficando quase empurrados aos "Gostei ou não gostei". Analogamente, uma paisagem natural pode ser apreciada meramente ao nível imediatista. Mas a emoção que essa paisagem desencadeia em nós pode ser trabalhada pela educação científica. Melhor sentida? De certo melhor protegida. A literacia científica é fundamental como mais-valia para vermos e apreciarmos a Natureza que nos rodeia. E, já agora, de onde vem o nome Jurássico?

Luís Azevedo Rodrigues

O conteúdo deste blogue é da inteira responsabilidade dos Museus da Politécnica (Museu de Ciência e Museu Nacional de História Natural).