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Física

A crise, a física e o Ronaldo

O cientista e divulgador britânico Jim Al-Khalili, cronista da Gazeta de Física, interroga-se sobre prioridades de investimento em tempos de crise.

Jim Al-Khalili

Ao mesmo tempo que escrevo esta coluna, no Reino Unido a comunidade académica de físicos, astrónomos e outros cientistas do espaço procura avaliar os prejuízos causados pelos enormes cortes no financiamento para a investigação que foram anunciados em Dezembro passado pela instituição que financia a ciência no Reino Unido, o Science and Technology Facilities Council (SFTC). Mas será que os nossos gritos de protesto deveriam ser ouvidos com mais atenção do que os de todo o restante sector público? É claro que a recessão mundial atingiu todas as áreas de investimento público, incluindo a ciência, e no contexto actual o futuro financeiro imediato não é promissor para ninguém. Talvez não nos devêssemos queixar.

Estes cortes governamentais parecem ter afectado de uma forma desproporcional os físicos nucleares. Dois dos três projectos nacionais de investigação actualmente financiados foram cancelados, bem como todos os sete projectos futuros que haviam sido propostos, o que representa um corte significativo de 52%. Que isto suceda quando o Reino Unido está a debater um novo programa de energia nuclear e a discutir os problemas dos resíduos nucleares demonstra uma inacreditável falta de visão a médio prazo.

Um relatório recente sobre a física e engenharia nucleares no Reino Unido realçou a necessidade de se manter uma base sólida de ciência nuclear, e afirmou muito claramente que a física nuclear tem aplicações em inúmeros campos. As suas aplicações nos cuidados de saúde, no ambiente, na indústria nuclear e na segurança nacional necessitam de um bom número de pessoas especializadas nesta área, que em grande medida terão de receber formação por físicos nucleares académicos. O relatório afirma que "continuar os cortes de financiamento poderá causar a morte desta área científica, o que levará à perda de um conjunto importante de capacidades técnicas, atingindo negativamente o fornecimento de cursos de mestrado". Muitos dos grupos de investigação nas universidades de todo o Reino Unido coordenam e apoiam cursos de mestrado como um spin-off da sua investigação básica que fornece pessoas formadas que entram directamente nos sectores nuclear, radiológico e de cuidados de saúde.

Continuar a ter trabalhadores especializados para a indústria nuclear é claramente uma questão prioritária para o Reino Unido, dado que, embora tenhamos deixado de projectar e construir centrais energéticas nucleares, precisamos de ser clientes inteligentes quando encomendamos reactores ao estrangeiro. Também precisamos de peritos em física nuclear para lidar com o desmantelamento dos reactores nucleares antigos e para tratar dos nossos resíduos nucleares em segurança. De onde é que o STFC pensa que os profissionais especializados em física nuclear e na instrumentação e medida associadas de que o Reino Unido precisa hão-de vir? Comparado com a França e a Alemanha, o Reino Unido gasta apenas um vigésimo destes em investigação em física nuclear - será que podemos estar assim tão errados?

O que é fundamental discutir agora é como é que a comunidade académica de físicos nucleares, o governo e as agências de financiamento podem trabalhar em conjunto para garantir a sobrevivência destas áreas de conhecimento técnico, essenciais para o futuro da nação. Limitar-se a protestar para que as decisões já tomadas sejam anuladas pode até ser contraproducente, dado que provavelmente haverá muitíssimos grupos de pressão a gritar "não aos cortes na minha área". Temos também de garantir que o nosso governo compreende o entusiasmo, a importância e a relevância da investigação que fazemos em física nuclear, desde estudar porque é que as estrelas brilham e como fabricam todos os elementos, até aplicar os nossos conhecimentos ao desenvolvimento de novos tratamentos para o cancro. Se a nossa disciplina acabar, os ministros do governo terão de pensar como irão explicar no futuro porque é que não apoiaram a física nuclear quando o orçamento necessário era bem menor que o salário do Cristiano Ronaldo no Real Madrid. Espero que a situação não tenha atingido este extremo em Portugal.