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Expresso

As cidades são para quem?

Viver nos centros das cidades, em particular em Lisboa e no Porto não é para quem quer é para quem pode. Esta afirmação representa a realidade de um número elevado de pessoas que procuram habitação nos centros da cidade para residirem e não encontram a custos acessíveis.

Muitos residentes e naturais dos bairros históricos das cidades de Lisboa e Porto estão a ser expulsos, para dar lugar à crescente ocupação temporária das casas disponíveis.

Encontrar uma habitação para residir no centro da cidade é tão difícil como encontrar uma agulha no palheiro. Não só há menos imóveis para habitação permanente como os preços aumentaram brutalmente empurrando as pessoas para as periferias.

Há estudos que dizem que nos últimos cinco anos o número de casas disponíveis para arrendamento de longa duração diminuiu em 30%, e que no Porto e Lisboa, a redução atinge 85% e 75% respetivamente.

Os valores de arrendamento para habitação permanente são verdadeiramente proibitivos para a esmagadora maioria das famílias, em especial das famílias trabalhadoras. Quem tem possibilidade de residir em Lisboa quando não se consegue encontrar um apartamento T1 para arrendar por menos de 800 euros em Lisboa? Quem consegue morar em Lisboa quando o preço médio de arrendamento de um apartamento ronda os 1500 euros? Deste modo, quem aufira o salário mínimo nacional ou salários na ordem dos 700/800 euros não tem direito a residir na cidade, não tem direito a residir no centro onde sempre residiu. Esta é uma realidade que afeta também muitos jovens que se veem impossibilitados de residir na cidade.

Face a tudo isto, coloca-se uma questão, as cidades são para quem? Que cidade temos e que cidade queremos? A cidade está mais elitizada e segregada. São as famílias com elevados rendimentos, por um lado e os turistas por outro que têm a possibilidade de residir e/ou usufruir da cidade, embora através de usos distintos. É esta a cidade que temos! Mas não é esta a cidade que queremos. Não queremos uma cidade só para alguns. Queremos uma cidade de e para todos.

O direito à cidade e o direito ao lugar está colocado em causa ao ser negado a um cada vez maior número de pessoas. A cidade tem de ser para todas as camadas da população.

É a diversidade e a pluralidade que dá dinâmica e vida à cidade. Uma cidade não o é só pelo seu edificado, é-o sobretudo pelas vivências e experiências, pelas relações que criam numa comunidade, e pelas características específicas de cada bairro.

O crescimento exponencial do alojamento local nomeadamente nos centros históricos das cidades de Lisboa e do Porto, não sendo o único fator, está a contribuir em muito para a descaracterização dos bairros tradicionais e está a dificultar o acesso à habitação, quando se verifica a transferência de imóveis de arrendamento permanente para arrendamento temporário (um estudo da AHRESP refere que 19% dos imóveis passaram de arrendamento permanente para alojamento local e 13% eram utilizados para habitação própria e permanente).

O que se vive hoje em Lisboa e Porto já foi vivido por outras cidades no mundo. Importa conhecer essas experiências, que medidas tomaram e que resultados alcançaram, mas importa

também tomar medidas para moderar o alojamento local de forma a compatibilizar esta atividade económica com a necessidade de assegurar o acesso à habitação e de salvaguardar as características dos bairros tradicionais. Se nada for feito, mais cedo do que tarde, perde-se toda a vivência dos bairros, perde-se a autenticidade e a vida das cidades e tudo aquilo que quem aa visita vai à procura e pode já não vir a encontrar.