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A não retoma do investimento

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Depois do investimento ter caído 30% em três anos, chegando a níveis que só encontram paralelo no distante ano de 1986, a alegada retoma do investimento, efusivamente celebrada por Paulo Portas, resume-se afinal a uma taxa de crescimento de 2.3%.  

Os 5.2% de que tem falado Paulo Portas incluem a variação de existências, isto é, a variação de stocks de matérias primas e produtos produzidos ou em fase de produção que ainda não foram vendidos. A variação de existências é considerada investimento apenas para efeitos contabilísticos. O investimento propriamente dito é a formação bruta de capital fixo, que cresceu apenas 2.3%.  

Depois de todos as reformas estruturais, depois do super crédito fiscal, depois de duas reduções da taxa de IRC - e depois de todas as políticas convencionais e não convencionais do Banco Central Europeu - a taxa de crescimento do investimento que Paulo Portas está a festejar - a real, de 2.3%, não a de 5.2% - não permite sequer compensar a depreciação do stock de capital existente, o que significa, na prática, que não estamos a aumentar a capacidade produtiva. Este facto parece ser  confirmado pelo Inquérito de Conjuntura ao Investimento, publicado pelo INE a 30 de Janeiro.   

Com a taxa de crescimento de 2014, Portugal levaria dezasseis anos só para recuperar o investimento perdido nos últimos três.  

Paulo Portas tem toda a razão quando diz que o investimento é o dado mais crítico da economia portuguesa. Mas não tem nenhuma razão quando proclama o sucesso das políticas do que governo a que pertence. Não haverá retoma significativa do investimento privado enquanto o investimento público não inverter a tendência dos últimos anos. É preciso não esquecer que o investimento público foi cortado em 60% (quase seis mil milhões de euros a menos do que em 2010).   

O investimento público, sobretudo num contexto de elevado desemprego, não é feito à custa do investimento privado. Não há o chamado efeito crowding-out, em que público e privado competem por recursos escassos, mas sim crowding-in, em que o investimento público mobiliza e induz investimento privado adicional. É por esta razão que os multiplicadores associados ao investimento público são tão elevados. A redução da despesa pública à custa de cortes sucessivos no investimento público pode servir para compor os números do défice, mas, tendo em conta as necessidades do país, tendo em conta o actual contexto económico, e tendo em conta o nível historicamente reduzido das taxas de juro, esse corte carece de qualquer tipo de racionalidade.   

Para além voltar a apostar no investimento em qualificações, no investimento em ciência e no investimento em inovação, o país também precisa de investimento que produza efeitos imediatos, sobretudo no emprego. A reabilitação urbana é um bom exemplo de um investimento com forte impacto no emprego e que dinamiza a fileira da indústria dos materiais de construção, que valoriza as áreas urbanas e melhora a eficiência energética. Para além dos incentivos dados à reabilitação urbana feita por privados, não há nenhuma razão para que o Estado não participe mais activamente nesse investimento, por exemplo, através do reforço e aprofundamento das suas política públicas de habitação, como defendeu este sábado António Costa e como o PS já tinha proposto num debate parlamentar com o ministro Pires de Lima.  

Portugal tem hoje níveis de investimento público e investimento privado que são incompatíveis com a modernização do país e, portanto, incompatíveis com qualquer ideia de sustentabilidade futura. Ao contrário do que foi anunciado -- e ao ao contrário do que está a ser celebrado pela maioria PSD-CDS-- o "momento do investimento" não chegou. Portugal pode já não estar em recessão, mas continua em crise.