Siga-nos

Perfil

Expresso

Saber o que se passou

Todos queremos saber o que se passou na tragédia do Pedrogão Grande. Eu quero saber se o Estado falhou e, se tiver falhado, eu quero saber em que é que falhou e porquê. Mas não se deve começar um inquérito presumindo a sua conclusão.

Muita gente assume como evidente que o Estado falhou, porque não é admissível que tenham morrido 64 pessoas sem que tenha havido uma falha da parte dos bombeiros, da GNR, do SIRESP ou da proteção civil. Como escreve Paulo Tavares no Diário de Notícias: “há uma conclusão prévia a inquéritos, investigações ou despachos oficiais: o Estado falhou”. E falhou porque a proteção da segurança é o primeiro dever do Estado perante os seus cidadãos, o fundamento do nosso contrato social.

Concordo com a premissa, mas não necessariamente com a conclusão. Embora a compreenda: admitir que nada podia ter sido feito para evitar aquela tragédia pode não ser uma conclusão admissivel, não no sentido de essa conclusão ser falsa, mas de nem sequer a admitirmos como uma possibilidade. Admitir que possa haver uma tragédia que transcenda a nossa capacidade de a evitar pode ser incompatível com a imagem que gostamos (e precisamos) de ter de nós próprios.

Mais do que procurar saber o que se passou, importa procurar saber o que poderia e deveria ter sido feito de diferente. Este pressuposto, se levado ao extremo, tem riscos, porque pode transformar o inquérito numa acusaçao em busca de um culpado, redundando numa caça às bruxas. A vontade de acusar, infelizmente, pode mesmo sobrepôr-se à vontade de saber o que se passou. Devemos procurar evitar que tal aconteça. Daí a importancia de se avançar rapidamente para um inquérito independente. Não se trata de querer evitar ou adiar o debate politico, mas apenas de procurar que este, que irá sempre acontecer, seja o mais factual e objetivo possível. A responsabilidade democrática também passa por aí.