Siga-nos

Perfil

Expresso

No fim quem salva é o BCE

Num momento em que todas as consultas populares parecem representar uma ameaça existencial para a zona euro e para o projecto europeu, transformar um referendo sobre uma questão de política interna num referendo sobre o futuro do governo italiano, sobre o futuro dos bancos italianos e sobre o futuro do euro e do projecto europeu é receita para o desastre. A dramatização italiana, ampliada e reforçada externamente, arrisca-se a criar aquilo que foi pré-anunciado: uma (nova) crise existencial para a zona euro. Repetindo o padrão em vigor, essa crise só poderá ser travada (novamente) pela criatividade do Banco Central Europeu (BCE).

Depois a vitória do Não, o que poderia ser apenas a rejeição de uma alteração ao sistema político italiano, passou a ser um problema para toda a zona euro e para o sistema financeiro europeu. Não teria de ser assim, mas, infelizmente, parece que é, e os efeitos seguem já a seguir: os juros vão certamente disparar e os prémios de risco idem. Com a assimetria do costume, Portugal deverá ser um dos mais afectados. Não porque tenha feito algo para que tal aconteça, mas simplesmente por ser o país que é, na zona monetária em que está situado.

Não sabemos o que vai acontecer, nem sabemos o que fará o BCE, mas sabemos uma coisa: a haver instabilidade financeira e subida dos juros, não há muito que um país, individualmente, possa fazer para baixar os juros. Como aconteceu desde 2012, o BCE tem sido o bombeiro de serviço. Tem sido e, cada nova perturbação, terá de continuar a ser esse bombeiro. Se houver uma nova crise nos juros da zona euro, as desculpas de 2010/11, que estiveram na base da legitimação das políticas de austeridade, já não estão disponíveis. A receita da auto-flagelação orçamental para apaziguar os mercados passou de moda, sobretudo quando os défices públicos e externos são hoje, ou estão a caminho de ser, historicamente baixos e não podem, por essa razão, ser apontados como causa justificativa de qualquer tipo de “falta de confiança”

Se assim for, então o Não no referendo italiano coloca um novo desafio à zona euro: não tendo ao seu dispor as respostas antigas, precisa de encontrar nova respostas. Isto, claro, se tal for possível, e/ou desejável, e/ou exequível. Em alternativa, pode não fazer nada e esperar que o BCE continue a fazer o que tem feito: salvar a zona euro da incapacidade de se transformar numa zona monetária que seja funcional, pondo cobro às crises que vão inevitavelmente surgindo. Olhando para o panorama política na zona euro, o BCE parece condenado a manter e aprofundar tudo o que tem feito desde 2012. Não porque os resultados das suas políticas sejam os ideais, mas apenas porque são a única alternativa existente. Se o BCE nada tivesse feito a partir de 2012, dificilmente a zona euro existiria, pelo menos no formato actual.