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Expresso

A oposição ideal

Vivemos, há meses, em permanente sobressalto histericamente fabricado pela oposição. Ele era o acordo impossível, seguido de o orçamento que não seria aprovado, rapidamente transformado em o orçamento inexequível e que iria requerer um plano b e medidas adicionais. Quando essas profecias fracassaram e se percebeu que a oposição não teria qualquer ganho em falar de finanças públicas, rapidamente apareceram outras catástrofes: os serviços públicos estão em colapso e falta investimento público. Não há melhor tributo ao “governo das esquerdas” do que ver a oposição, depois do fiasco de todas as suas profecias apocalípticas, atacar o Governo e a maioria parlamentar por (ainda) não terem feito aquilo que querem fazer.

Esta estratégia tem uma enorme vantagem: reforça e dá sentido estratégico à actual maioria. Se PSD e CDS tivessem algo de relevante para dizer ao Bloco, ao PCP e ao PEV em matéria de Estado Social e investimento público, colocando-se entre o PS e os demais partidos, a oposição poderia abrir brechas na atual maioria. Acontece que se passa o exacto oposto: cada crítica que PSD e CDS fazem nestas temáticas tem como único efeito reforçar (ainda mais) a percepção de que é necessário romper com a governação anterior e aprofundar o rumo actual.

Por muito que tentem, nem o PSD nem o CDS têm qualquer credibilidade em termos de Estado Social e investimento público. E não é só por tudo aquilo que fizeram quando estiveram no Governo, é também, e sobretudo, por tudo aquilo que dizem quando estão na oposição. Quando PSD e CDS acusam o Governo de aumentar a despesa pública e de não a aumentar o suficiente (para melhorar os transportes, a saúde ou a escola públicas), percebemos que a oposição está à deriva, dizendo uma coisa e o seu contrário, às vezes na mesma frase.

Falar de problemas nos serviços públicos quando se clama por menos Estado não é propriamente uma estratégia que prime pela lógica, mas pode mesmo ser a única lógica que resta a dois partidos que parecem ter-se rendido à condição de partidos de protesto. Mas a ironia disto tudo é que são partidos que protestam e clamam pelas causas dos outros, isto é, pelas causas dos partidos aos quais supostamente se opõem. Uma oposição que se limita a dizer que temos de fazer mais e melhor pelas causas em que nós próprios acreditamos é uma bizarra oposição. Num certo sentido, o PSD e o CDS são a oposição ideal, uma espécie de consciência crítica que jamais poderá ser alternativa, porque se limita a recordar à actual maioria que, para ser bem sucedida, o que importa mesmo é romper (ainda mais) com a Governação anterior.