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Expresso

O alegado colapso do investimento e da confiança

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Passos Coelho insiste na tese de que este governo desbaratou uma trajectória de crescimento sólido e sustentável e está a levar o país para o abismo económico. O pior é mesmo o investimento, que, diz-nos o ex-primeiro ministro, está a cair a pique porque a actual maioria, com as suas “reversões” (concessões privatizações e a não descida da taxa de IRC), acabou com a “confiança” dos investidores.

Por muito que Passos Coelho diga que deixou a economia a crescer 1.5%, a realidade é que a economia travou fortemente no final do segundo trimestre de 2015 e tem estado estagnada desde então. Aliás, se olharmos para os últimos três trimestres, o pior foi mesmo o terceiro de 2015, quando a economia cresceu apenas 0,1; no quarto de 2015 e no primeiro de 2016, a economia cresceu 0,2, um valor muito baixo, mas ainda assim o dobro do último trimestre que foi a inteira responsabilidade de Passos Coelho. O máximo que podemos dizer é que o actual Governo ainda não foi capaz de inverter a tendência de estagnação que vinha de trás.

Quanto à confiança, o melhor é mesmo olhar para o que nos diz o Instituto Nacional de Estatística (INE). No seu Inquérito de Conjuntura ao Investimento, publicado a 8 de julho, ficamos a saber que o investimento empresarial vai subir 6% em 2016, uma revisão em alta face aos 3,1% do inquérito anterior. Ficamos também a saber que o investimento empresarial terá descido 0,2% em 2015.

A revisão em alta das perspetivas de investimento para 2016, bem como o facto do investimento empresarial ter caído em 2015, contrariam a tese segundo a qual o actual Governo estaria afastar o investimento empresarial. De acordo com o INE, parece ter-se passado exactamente o oposto. Depois das “reversões”, os empresários dizem que vão investir mais, não menos. Mais face a 2015 e mais agora face ao que diziam em outubro passado.

Outros dois dados a ter em conta no inquérito do INE é que as perspectivas de vendas se mantêm como o factor mais limitativo do investimento, o que mostra a importância das políticas de estimulo à procura, e que há mais empresas a eleger o acesso ao crédito como um entrave ao investimento. O primeiro permite perceber o quão contraproducente é a política de austeridade europeia de que Passos Coelho é fiel seguidor. A segunda mostra que as políticas expansionistas do BCE não chegam para assegurar o fluxo de financiamento à economia; no caso Português, mostra o quão urgente é a resolução da questão do crédito mal-parado e, de forma conexa, quão urgente é recapitalizar o nosso tecido empresarial (os passivos das empresas são activos dos bancos).

Se queremos mesmo dinamizar o investimento, então temos de dinamizar a procura em Portugal e na Europa, como defende este Governo e como não se cansam de dizer os empresários em todos os inquéritos ao investimento que o INE tem publicado desde o início da crise; temos de acelerar a execução dos fundos europeus, algo que o Governo anterior deixou parado, mas que o actual tem estado a corrigir; e temos de resolver o problema do crédito mal-parado, algo que Passos Coelho, erradamente, não considerava e continua a não considerar um problema que carece de resolução. As políticas que Passos Coelho entende que deviam continuar podem corresponder à cartilha defendida por Bruxelas, mas ou têm um contributo negativo (a estagnação da procura por via da penalização dos rendimentos) ou não parecem ter um contributo real ( a redução taxa de IRC, as privatizações e concessões) para a dinamização do investimento.

Para além do que nos diz o INE no seu inquérito ao investimento, é preciso recordar que os maus resultados do investimento no primeiro trimestre de 2016 se deveram essencialmente à queda da construção, que havia subido fortemente no primeiro trimestre de 2015. Ser a queda da construção (fim das obras no túnel do Marão) a determinar a queda do investimento diz-nos mais sobre o anterior Governo do que sobre o actual: foi uma grande obra pública lançada por José Sócrates que permitiu sustentar a ilusão de que o investimento, em ano eleitoral, estava a acelerar por causa das reformas de Passos Coelho.