Siga-nos

Perfil

Expresso

O insucesso do ajustamento na banca

  • 333

O programa de ajustamento português, com a complacência da troika e do Banco de Portugal, não contribuiu para a viabilidade do sector bancário português e foi gerido de acordo com as conveniências políticas da chamada saída limpa e do período de campanha eleitoral que se lhe seguiu. Foi (mais) um sucesso do ajustamento que saiu caro ao país e que não resolveu verdadeiramente nenhum problema, antes pelo contrário.

Em 2012, atirou-se dinheiro para cima do problema, recapitalizando a Caixa, o BCP, o BPI e o Banif. Nenhum dos bancos que recebeu dinheiro público conseguiu reembolsar a ajuda pública pelos seus próprios meios. Quando Passos Coelho disse que estava preocupado com o facto de a Caixa Geral de Depósitos não ter reembolsado a ajuda pública, não só omitiu a bomba-relógio que era o Banif, como se esqueceu de dizer que o BCP e o BPI não reembolsaram o Estado porque se tornaram subitamente rentáveis, mas sim porque houve aumentos de capital, com dinheiro vindo sobretudo de Angola, para pagar ao Estado e reembolsar os chamados Cocos, que custavam cerca de 10% em juros.

Se olharmos para o lado do ativo, as coisas não são animadoras. O volume de crédito mal parado no balanço dos bancos portugueses continua a bater recordes, estando quase nos 9% de todo o financiamento concedido a empresas e famílias. Quando percebemos que o crédito mal parado continua a subir, constatamos que o principal problema da banca portuguesa – a qualidade e rentabilidade dos seus ativos – não só não foi resolvido com o ajustamento, como se agravou.

É neste contexto de um programa de ajustamento desperdiçado e de uma banca disfuncional que devemos situar o problema dos non-performing loans. Por muito que o BCE disponibilize liquidez barata, os juros que os bancos portugueses podem cobrar às empresas no novo crédito serão sempre penalizados pela rentabilidade da carteira de crédito já existente; por outro lado, e porque essa carteira de crédito também consome muito capital, que é escasso, o volume de crédito também é afetado negativamente. Esta é, digamos assim, a forma do passado se manter presente e penalizar o futuro.

Antes de pensarmos nas soluções, importa perceber que há um problema. Este problema não é um pequeno pormenor, porque diz respeito à capacidade que os bancos têm de alimentar, ou não, a retoma da economia. Trata-se, no fundo, de perceber se os bancos têm ou não condições para desempenhar uma das funções que justifica a sua existência: concederem o crédito que a economia precisa em condições acessíveis.