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Expresso

Foram eleicões legislativas, não eleições governativas

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No quadro parlamentar saído das eleições, o PS é o único partido capaz de assegurar a existência de um governo com maioria parlamentar. E é por isso que o PS dialoga e negoceia com todos os partidos com representação parlamentar. Nem faria sentido que não fosse assim. Chama-se democracia.

A viabilização de um governo liderado por quem governou nos últimos 4 anos por parte de um partido que considera estarmos perante um governo que é simultaneamente radical e incompetente, que atacou e quer voltar a atacar a educação, a saúde e a segurança social públicas, que apostou e quer continuar a apostar numa ideia de competitividade que depende da desvalorização salarial e da precarização laboral não é menos bizarra, impensável ou contra-natura do que a ideia de um governo liderado pelo PS com o apoio do Bloco, PCP e Verdes. Pode ser inevitável, sobretudo se a alternativa for a inexistência de qualquer governo, o que lançaria o país numa crise política, que só poderia ser resolvida em meados de 2016. Mas não é inevitável a priori, como se se pudesse ignorar que existe uma maioria absoluta de deputados de esquerda no parlamento com quem se pode e deve negociar. A viabilização de um governo liderado por Passos Coelho só não representa uma violação grosseira do programa com que o PS se apresentou a eleições se não existir alternativa ou se a alternativa for de tal natureza que represente ela própria uma violação desse programa.

Como é evidente, o PS nunca aceitaria qualquer solução que defendesse a violação ou a denúncia dos seus compromissos internacionais, que pusesse partes essenciais do seu programa em causa, bem como nunca aceitaria apoiar partes importantes do programa dos partidos que estão à sua esquerda. Mas não é disso que se trata. O que está em discussão é saber se é possível haver um acordo entre o PS e os partidos à sua esquerda que assegure uma maioria parlamentar estável, garantindo a governabilidade do país. O PCP e o PEV já se mostraram disponíveis para negociar e fizeram-no em termos que não permitem a recusa do PS. Veremos o que acontece na reunião com o Bloco de Esquerda (BE). A única certeza é que destas conversações nunca sairá qualquer acordo que defenda a saída do euro, da Nato, nem que defenda um programa de nacionalizações ou a coletivização da economia. Depois do PREC de direita dos últimos 4 anos, não haverá um (novo) PREC de esquerda. O único radicalismo possível é mesmo o de se tentar fazer algo que nunca foi possível em 40 anos. E respeitar a história de um partido não implica estarmos condenados a repeti-la.

Se o PCP, o PEV e o BE estiverem dispostos a negociar em termos que sejam compatíveis com o programa do PS, e se estiverem disponíveis para assumir um compromisso que assegure uma solução governativa estável, qual o fundamento para recusar esse hipotético acordo? Se esses partidos mudarem de comportamento e forem flexíveis, fazendo o que nunca fizeram no passado, não pode ser o PS a ficar agarrado ao passado, respondendo com o mesmo sectarismo que sempre atribuiu a esses partidos. Não poderá ser por culpa do PS que a esquerda não governa, nem será por culpa do PS que Passos Coelho se mantém em funções. Isso só acontecerá se não houver alternativa (credível).