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Expresso

A nossa tragédia

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Presos às mentiras que andaram a contar aos seus eleitorados desde 2010, incapazes de reconhecer que os dois programas de ajustamento grego falharam por uma questão de conceção, e não de execução, há um conjunto de líderes europeus que não concebe outra forma de tratar os gregos se não através da sua derrota ou, em casos mais extremos, na sua total capitulação. Não há qualquer racionalidade económica, muito menos social, neste processo. São, na maioria dos casos, razões de política interna nacional.

A tragédia a que estamos a assistir começou com uma mentira. Não falo do facto dos gregos terem mentido sobre o real estado das suas contas públicas, mas de tal ter sido usado como desculpa para transformar aquilo que era uma crise bancária europeia, de natureza sistémica, numa crise de orçamental em alguns países incumpridores, que tinha uma natureza moral e comportamental e que só podia ser curada através de doses cavalares de austeridade. Essa mentira impôs custos desnecessários à Grécia e a todos os países sujeitos a programas de ajustamento e, como os acontecimentos dos últimos dias tornaram evidente, causou e continua a causar danos irreparáveis à credibilidade do projeto europeu.

Ninguém questiona que a Grécia precisa de reformas e que tem graves problemas económicos e institucionais. É certo que a atual arquitetura institucional da zona euro não está feita para lidar (de forma justa e equitativa) com conflitos redistributivos entre Estados-membros. Mas uma coisa é ter uma discussão séria, realista e ponderada sobre esse tema, outra coisa inteiramente diferente é tudo o que se tem vindo a passar. A situação é e seria sempre complexa. Mas nada justifica o que se tem passado, nada justifica o comportamento de alguns países e o nível de humilhação infligido à Grécia.

A tensão, ou mesmo contradição, entre mandatos democráticos é um facto que não podemos ignorar Mas não há, porque não pode haver, qualquer mandato democrático para humilhar outra democracia, sobretudo se essa democracia for um parceiro europeu. Esse é, ou devia ser, um dever absoluto entre parceiros num projeto político. A proposta de Schauble, apoiada por vários países, viola esse princípio elementar da relação entre parceiros políticos, degrada quem a apresenta e, infelizmente, acaba por degradar (ainda mais) o projeto europeu. Mesmo que seja travada, o mero facto de ter sido apresentada é suficientemente grave e revelador da enorme crise política e institucional em que vive a moeda única. É uma proposta ofensiva que só pode ser repudiada. Não por compaixão com a Grécia, mas por respeito por qualquer ideia de projeto europeu que mantenha níveis mínimos de respeitabilidade e decência democrática.