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Expresso

Opinião sem cerimónia

Um líder estranhamente impreparado

O primeiro mês da liderança de António Costa está já cheio de gafes, recuos e omissões. Estranhamente um líder experiente, popular, colocado sob os holofotes comete demasiados erros para alguém com o seu percurso. Um mito a desfazer-se perante a realidade?

Decorrido que está o primeiro mês de liderança de António Costa como "chefe de fila" do Partido Socialista, o ex número 2 de José Sócrates revela já um belo currículo de gafes, erros cometidos e notórios recuos. Curiosamente, a melhor iniciativa que teve até agora foi a estratégia para descolar do "elefante no meio da sala" em véspera do conclave socialista. Revelando sangue frio, cálculo político e medindo bem todas as palavras, António Costa resistiu com dignidade a participar no "big brother" que tem sido o caso Sócrates. Pode dar uma bela aula de táctica, mas não de estratégia política.

Mas se na táctica é bom, na estratégia e nas propostas tem sido um desastre, por opções erradas ou por omissão. Colocado sob escrutínio dos principais holofotes, Antonio Costa acaba por cometer uma série de erros e o cardápio das primeiras semanas não é brilhante. Não vou falar das cheias na cidade porque já nem vale a pena, mas há todo um oceano a explorar.

António Costa tem de perceber que não tem mal nenhum um político dizer que se enganou. Aliás, tal só prova humildade democrática, coisa que em Portugal parece ser crime. Mas vejamos: 

Fundos Europeus - a primeira gafe 

Fundos europeus: António Costa cometeu a sua primeira grande gafe ao acusar o governo de estar a gerir mal o Portugal 2020 quando o nosso pais é actualmente o melhor exemplo na preparação e execução dos fundos europeus. Já aqui tinha referido que Poiares Maduro merecia um pedido de desculpas de António Costa, que afinal é o pior exemplo a gerir fundos comunitários na Área Metropolitana de Lisboa e foi o número 2 do governo que causou a "barracada" no arranque do QREN. Ficava bem pedir desculpa e assumir o erro.

Taxas turísticas -  erros e recuos  

Taxas de Lisboa: afinal as novas taxas do aeroporto de Lisboa já não vão ser bem como foram anunciadas. Apesar do atraso na entrega do Orçamento de Lisboa, e apesar da concessão de tempo extra, não conseguiram uma solução definitiva para as taxas que Costa quer cobrar aos estrangeiros e portugueses que aterrem no aeroporto da Portela. Portugueses esses que recentemente pagaram 268 milhões de euros de indemnização à autarquia de Lisboa pelo "incómodo" do aeroporto se situar na cidade. Na versão inicial a ideia era cobrar a todos os cidadãos que não residissem em Lisboa, logo a partir de Janeiro. A versão actual prevê que a taxa seja cobrada apenas a cidadãos não residentes em Portugal, sejam eles "turistas" que vão para Cascais, Sintra, Fátima ou Albufeira. Outro detalhe curioso é que, apesar de agora ser cobrada apenas a partir de Abril, a previsão de receita mantém-se. Trata-se de uma estimativa bem "rigorosa", a "olhómetro".Também aqui António Costa recuou, já não vai cobrar como queria, mas vai cobrar... Ficava bem pedir desculpa e assumir o erro.

Plano Juncker - uma gafe e um tiro ao lado 

Plano Juncker: o Secretário- geral do PS "espalhou-se" ao criticar o Governo por este alegadamente ainda não ter apresentado propostas para aproveitar o dinheiro disponibilizado pelo plano que o novo Presidente da Comissão apresentou para dinamizar a economia europeia. Talvez apressado em secundar Carlos Zorrinho, disparou mais um tiro ao lado. O governo tem várias propostas em carteiraprontas a aproveitar o arranque das candidaturas. Candidaturas essas, que alguém se esqueceu de avisar António Costa que afinal ainda não estavam abertas pois ainda há um Conselho Europeu para aprovar o plano Juncker. Aposto que o conselheiro para os assuntos europeus acabará despedido. Ficava bem pedir desculpa e assumir o erro.

TAP - Costa não leu o memorando que o seu PS aprovou

Privatização da TAP: Também neste caso ficamos esclarecidos que afinal o líder do PS só desmente aquilo que o Governo não disse, mas ao mesmo tempo confirma que Passos Coelho diz a verdade. Confuso? Nem por isso. António Costa apelidou o governo de fantasista ao afirmar que o Memorando de Ajustamento que Sócrates assinou com a Troika referia uma privatização parcial da TAP. Pois é! Precisamente o que o Governo está a fazer. Foi precisamente isso que Passos Coelho confirmou no debate quinzenal, ou seja, alienar uma percentagem da empresa. Mas António Costa critica o Governo por fazer aquilo que ele próprio defende e que está no memorando assinado pelo governo de Sócrates. Isto promete. Ficava bem pedir desculpa e assumir o erro.

Propostas do PS são iguais às do Bloco/Livre

Talvez o pior de tudo é o "novo" PS não assumir quaisquer reformas estruturais, escondendo o jogo até ao fim e recusar reconhecer a realidade do país. Hoje, as únicas propostas conhecidas de Costa e do PS pouco diferem das do Bloco de Esquerda ou do Livre. As reformas necessárias da Segurança Social ou da Administração Pública são demasiado importantes, arriscadas e sobretudo impopulares para o PS assumir qualquer compromisso que seja.

Para quem apela a consensos, mesmo que após eleições legislativas, e tendo em consideração a sua larga experiência governativa e autárquica, esperava-se bem mais, sobretudo no conhecimento de dossiers essenciais a uma boa governação política que tanto deseja e reivindica. Uma desilusão enquanto líder do maior partido de oposição com responsabilidade passadas e actuais no que concerne aos destinos do pais.

Como diz o ditado "não há uma segunda oportunidade para causar uma boa primeira impressão" e este não tem sido um bom cartão de visita. Realmente, tem sido "cada tiro, cada melro". Mas não na direção que António Costa pretende. Contudo, este é um processo necessário para o eleitorado saber com que qualidades políticas contar para as próximas eleições legislativas. Mitos mediáticos não sobrevivem ao quotidiano.