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Expresso

Opinião sem cerimónia

Tsipras é, afinal, pior do que os outros

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O pior pecado do Syriza não foi enganar os gregos sobre o resultado do Conselho Europeu, mas sim defraudar as enormes expectativas que criou a um povo já muito desiludido com os partidos tradicionais gregos. Para muitos o Syriza era a última esperança na já frágil democracia grega. 

De desilusão em desilusão, Alexis Tsipras e o seu polícia mau, o Ministro Varoufakis, arriscam-se a ser o maior bluff da história política recente. O problema não está apenas em não conseguir resolver o problema grego mas está, sobretudo, na traição da última esperança que os gregos tinham no sistema democrático. O Syriza aproveitou-se do desespero das pessoas e da falta de credibilidade dos restantes partidos para encher os cidadãos de expectativas que são frustradas a cada dia que passa.

Manifestantes regressaram, agora contra o Syriza 

Quer os gregos, quer os europeus percebem agora que o acordo conseguido em Bruxelas ainda não significa nada: a austeridade mantém-se e os manifestantes voltaram à rua para protestar da mesma forma contra mais este Governo grego, agora o do Syriza. Aliás, fica claro que Tsipras e Varoufakis enganaram os gregos e os seus apoiantes por essa Europa fora quanto aos resultados conseguidos no último Conselho Europeu. Os ganhos foram, afinal, apenas semântica política.

Quando ao resto, tem sido um carrossel de embaraços. O Syriza teve uma semana negra, só comparada aos desnortes do PS em Portugal. Os seus Deputados começam a queixar-se pela falta de mordomias no parlamento grego, alguns Eurodeputados do Syriza discordam da negociação de Tsipras no Conselho e um dos seus membros mais carismáticos ameaça sair do partido (mais uma semelhança com PS português).

Tsipras foge ao Parlamento grego

A cereja em cima do bolo, da gestão do novo governo grego, é a falta de apoio no Parlamento ao acordo no Conselho que os leva agora a querer aprovar o texto em Conselho de Ministros e não, como habitualmente, na casa da democracia. É uma técnica antiga, típica de outros regimes, que desvirtua a democracia e que é a antítese daquilo que o Syriza andou a pregar durante os últimos anos.  É a verdadeira traição aos valores democráticos que nenhum outro partido grego ousou fazer. O Syriza não respeita o seu parlamento nem consegue o apoio dos Deputados do próprio partido. Este bypass ao parlamento helénico não é mais do que uma tentativa de não expor publicamente as divisões internas no partido sensação grego. O Syriza revela-se assim ainda pior do que os outros partidos que tanto criticava.

Syriza enganou os gregos e os europeus

Quando muitos ainda hoje recordam o poder democrático da vitória e das propostas do Syriza, eu recordo que não é correcto, nem honesto, defender medidas que não encontram enquadramento ou legalidade no quadro europeu. Ou seja, o Syriza prometeu medidas que sabia de antemão não dependerem apenas da sua vontade mas também que não eram legais face às regras da União Europeia.

Sempre aprendi que pior do que perder uma eleição, ou uma negociação, é perder o respeito dos nossos apoiantes e dos nossos parceiros de negociação ou de eleição. Da desilusão dos gregos já falamos, mas o facto de Tsipras ser um delator das conversas do Conselho, de revelar a posição de cada Estado-Membro ou de mentir acerca destas, tem como único resultado a perda de credibilidade e da confiança dos seus pares europeus. Será assim muito mais difícil conseguir qualquer acordo pois preocuparam-se mais em negociar na praça pública do que em sede própria, o Conselho Europeu.

A terminar, e ao ler as reclamações dos Deputados do Syriza pela perda de mordomias, ocorre-me recordar o exemplo de Marinho e Pinto, que critica os custos e mordomias do Parlamento Europeu mas que nem pensa em abdicar delas. A receita e a escola são muito parecidas.