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Opinião sem cerimónia

Ricardo Salgado, o déjà vu de Sócrates

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Do animal feroz à capacidade de varrer os problemas para debaixo do tapete, à tese da perseguição e da cabala, Sócrates e Salgado são duas faces da mesma moeda. Foi a mesma pessoa que livrou Portugal da bancarrota e que disse não ao ex-DDT, essa pessoa é Pedro Passos Coelho.

Ao longo dos últimos meses evitei escrever sobre dois dos temas que mais têm preenchido os nossos dias - o caso BES e José Sócrates - visto integrar a Comissão de Inquérito que está a investigar a falência do BES. 

Após as duas audições a Ricardo Salgado, e quando estamos já na última semana, decidi, de uma assentada, escrever sobre a estratégia comum destas duas personalidades incontornáveis da vida portuguesa: Salgado e Sócrates.

A culpa também era da crise internacional

 Logo na primeira audição a Ricardo Salgado, na Comissão de Inquérito, fiquei com a clara sensação de déjà vu quando ouvi os seus primeiros argumentos que fizeram recordar o "animal feroz" José Sócrates. Tal como José Sócrates, Ricardo Salgado responsabilizou a crise internacional pela derrocada do BES. Tal como José Sócrates, também Ricardo Salgado não assumiu qualquer responsabilidade pela derrocada do banco. Tal como José Sócrates, também Ricardo Salgado, montou uma narrativa e uma previsão económica que justificariam, hipoteticamente, o seu plano de salvação. Tal como José Sócrates, também Ricardo Salgado preferiu a fuga para a frente, a enfrentar a realidade. Tal como Sócrates, também Salgado conseguiu sempre apontar um culpado que expiasse as suas próprias responsabilidades.



Tal como José Sócrates, Ricardo Salgado não conseguiu explicar como levou o grupo à pré-bancarrota. Se Sócrates culpa o chumbo do PEC 4, Salgado responsabiliza o Banco de Portugal por usar o ring-fencing dizendo que, se lhe fosse dado mais tempo, resolveria o problema, tal como José Sócrates. Nem Salgado assumiu a estratégia suicida que contaminou o Banco, nem Sócrates alguma vez justificou porque gastou à tripa forra durante vários anos. Tal como Sócrates, Salgado culpa apenas a reta final pelo seu descalabro.



Na segunda visita que nos fez, Ricardo Salgado trouxe a outra narrativa de José Sócrates que também já conhecíamos, a da cabala. Foi o segundo déjà vu e que justificou a confirmação da minha tese: são mesmo almas gémeas. 

Vítima de perseguição 

Se na primeira audição Ricardo Salgado já se tinha revelado como a vítima disto tudo, na segunda foi mais evidente: Tal como José Sócrates, se queixou ao longo de toda a sua vida política de perseguição, Ricardo Salgado assumiu-se como vítima de perseguição do Banco de Portugal, contestando o julgamento sumário de que estaria a ser vítima. Tal como José Sócrates, suscitou um incidente de suspeição sobre o juiz, neste caso o regulador. Tal como José Sócrates, Ricardo Salgado tentou ridicularizar as provas contra si, a auditoria forense e a credibilidade do "juiz/governador". Salgado, tal como Sócrates, diz desconhecer os factos de que é acusado.

A sua verdade, diferente da realidade 

Há uma outra semelhança que me merece particular destaque, a impressionante convicção na sua verdade. Ricardo Salgado, tal como José Sócrates, confessou estar ali para contar e defender a sua verdade, a sua tese que, de forma genuína ou através de uma impressionante teatralidade, nos faz sentir que acredita mesmo na ficção que conta como a sua realidade. Em ambos os casos a defesa intransigente que fazem da sua tese, leva-nos a sentir que estarão alheados da realidade que vivemos e que estarão mesmo incapacitados de assumir a sua responsabilidade.



Ricardo Salgado, tal como José Sócrates, não poderia ter feito tudo isto sozinho. Certo que todos aceitaram que não são os únicos culpados, mas são os principais responsáveis, isso não deixa dúvidas.

Duas faces da mesma moeda 

Ambos tiveram sempre as suas equipas, escolhidas por mérito ou por razões familiares, no caso do BES ou de confiança política, no caso do PS. Ambos tiveram os seus fiéis seguidores, os seus cúmplices, os bajuladores. Ambos tiveram quem se aproveitasse de si, da sua riqueza, das suas mordomias, do seu poder, do seu conforto, do seu estatuto social.



José Sócrates, ao contrário de Ricardo Salgado, tem a sorte de, apesar de tudo, manter um conjunto de seguidores leais, que ainda hoje o defendem e que não têm receio de dar a cara pelo seu amigo. Isso é muito digno. Neste ponto, fica-se com a sensação de que apesar da fama, os políticos são mais leais aos seus amigos do que os banqueiros ou as supostas elites. Ao longo desta comissão foi por demais evidente a consecutiva desresponsabilização de diversos dirigentes (salvo raras exceções) da equipa de Ricardo Salgado, de alguns que o acompanharam ao longo do seu percurso e que, por omissão ou vergonha, foram cúmplices de tudo o que ali se passou. 



Tal como Ricardo Salgado, também José Sócrates não levou o país à bancarrota sozinho. Tal como Ricardo Salgado, também José Sócrates tinha os seus conselheiros, os seus administradores e os seus diretores, que agora assobiam para o ar.

Tentativa suicida de esconder a realidade

Tal como nos governos de Sócrates, também no BES houve, ao longo dos anos, falta de escrutínio da sociedade em geral, falta de coragem dos reguladores, falta de intervenção das instituições nacionais e internacionais para evitar a bancarrota que todos testemunhamos. Tal como Salgado, também Sócrates "empurrou os problemas com a barriga" e não quis enfrentar a realidade que revelaram os números, os avisos das instituições e os alertas - ambos afundaram o país e o seu banco, numa tentativa suicida de escamotear a realidade, de varrer os problemas para debaixo do tapete e por falta de coragem em assumir que o caminho que traçaram estava errado. 



No BES, como na República, também foi preciso disparar a bomba atómica para evitar males maiores, sendo que aqui foi o Banco de Portugal e o BCE que fizeram o papel de Teixeira dos Santos quando este "traiu" Sócrates para salvar o país da bancarrota pré-anunciada.

Fracas pseudo elites

Há, para já, duas conclusões que me parecem evidentes: as supostas elites do país não são todas como desejávamos, muitos não tinham a integridade nem os valores que esperávamos. Finalmente o país parece estar a mudar, não há classes protegidas ou acima de outras.



Como há dias um investigador referia, em entrevista ao DN, em Portugal sempre houve corrupção, mas finalmente está a ser combatida sem contemplações. Na política, como nos negócios, todos os que vêm por são bem-vindos. Separa-se assim o trigo do joio. Uma coisa é certa, depois de Salgados, Bavas e Granadeiros, Sócrates e de outros que tais, este país já não será o mesmo, será diferente e para melhor.

Felizmente, foi a mesma pessoa que salvou o país de Sócrates e que disse não a Ricardo Salgado, para bem dos contribuintes portugueses.