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Opinião sem cerimónia

Pablo Iglesias: a reencarnação de Hugo Chavez

O El Pais desvenda que os líderes do Podemos foram os conselheiros de Hugo Chavez na Venezuela e que regressaram a Espanha pois viram, quais abutres, na crise a oportunidade de aplicar o ideário chavista. Fala-se ainda de populismo e da reforma dos partidos.

 

O fenómeno político do ano no país vizinho foi, sem sombra de dúvida, a ascensão do Podemos e o destruir, por agora, do bipartidarismo em Espanha. Também na Grécia isso ocorreu mas de forma diferente, pois o Syriza agrupou um conjunto de descontentes de vários partidos e não resultou de um movimento das ruas. Cresceu sim na sequência do protesto popular. Mas afinal, e tal como iremos ver, também o Podemos não é afinal o resultado de um movimento popular assim tão genuíno

Em Portugal este fenómeno não tem paralelo por mais que alguns, os do costume, o tentem ser. Falhados ou desiludidos, os seus protagonistas saíram afinal dos seus partidos de origem e não conseguiram imitar o original. Alguns saíram porque o ego era demasiado grande para permanecerem obedientes a um partido onde não mandavam, outros saíram com o desprendimento de abandonar no auge de popularidade do partido por discordância na estratégia (Daniel Oliveira será um desses poucos exemplos), alguns/algumas deslumbraram-se porque foram cobiçados por um partido maior e outros "deram com os pés" ao partido (que ajudaram a destruir) assim que este começou a cair nas sondagens.

Podemos imitar Podemos? No

Por mais que por cá tentem imitar o Podemos, os diversos movimentos a surgir jamais terão o resultado espanhol porque não são genuínos mas apenas uma cópia, porque não são isentos de responsabilidade na situação mas, sobretudo, porque lhes falta sentimento que não se substitui por irreverência. São, no fundo, todos muito parecidos mas sem lugar para todos. Uns mais europeistas, outros mais nacionalistas, alguns mais populistas, outros mais trotskistas.

O crescimento de movimentos como o Podemos tende a promover fenómenos legítimos de imitação, típicos da sociedade globalizada em que vivemos e da facilidade de acesso à informação. Mas também por isso, e sobretudo por via do acesso à informação que hoje existe, percebemos afinal que o Podemos não é assim tanto o movimento político espontâneo, mas a consequência oportuna de um projeto intelectual estruturado que até já serviu de guia a Hugo Chavez. Será uma espécie de benchmark bem feito que soube aproveitar e inspirar um movimento que ecoava naturalmente do fundo das ruas espanholas, consequência da crise e da governação do país vizinho. Vejamos:

Embrião do Podemos foi o gabinete de Chavez 

Segundo a edição de ontem do El País, o insuspeito jornal espanhol de tendência mais à esquerda, vários dirigentes do atual Podemos iniciaram a sua estratégia de reflexão política no "think tank" espanhol que preparou em Caracas (1998) a doutrina chavista de tomada do poder. A cúpula atual do Podemos trabalhou até ao início de 2014 na fundação  espanhola "Centro de Estudios Politicos y Sociales" (CEPS), uma espécie de CES ( da Universidade de Coimbra), que segundo a investigação revelada pelo El Pais teve, ao longo dos anos, uma representação permanente no Palácio Miraflores, sede da presidência da Venezuela, paredes meias com o gabinete de Hugo Chavez e Nicolas Maduro. Os atuais líderes do Podemos desempenhavam o papel de conselheiros políticos e estratégicos da liderança chavista, mas terão participado também nos processos constituintes da Bolívia e do Ecuador, seguidores fiéis da doutrina chavista, ou "podemista", cujo resultado está à vista de todos na Venezuela.

Preocupante é que, pese embora os dirigentes do CEPS e do Podemos tenham abandonado a Venezuela quando os abusos e violência sobre manifestantes tiveram maior impacto mundial (início 2014), confessaram também que a partir daí dirigiram a sua atividade para Espanha onde  "a crise tornou a sociedade mais recetiva aos ideais chavistas". É isto que me preocupa e nos deve servir de alerta. Por detrás da consagração dos direitos sociais que já existem, quer na nossa Constitução, quer no caso Espanhol, está toda uma agenda populista, irresponsável, nacionalista, que poderá colocar de facto em causa tudo o que conseguimos construir em democracia.

Insuficiências da democracia permitem o populismo

Fazendo a nossa autocrítica, facilmente reparamos que estes movimentos, tal como Chavez, aproveitaram as fragilidades do Estado, as insuficiências da democracia, o desgaste dos partidos políticos, para impor as suas ideias e ideais, cujo resultado se pode ver já na crise e no caos que hoje se verifica nestes países da América latina. A Europa não é a América Latina, mas os problemas de base são os mesmos e servem-nos de alerta. Estes movimentos aproveitaram os buracos e fragilidades existentes nos partidos e no próprio papel do Estado para se afirmarem.

Urgente reforma dos partidos

O papel e forma de atuação dos partidos políticos, o rigor e força do Estado estão em causa e carecem de mais resultados. Só se consegue combater o populismo com competência e com mudanças relevantes na melhoria da qualidade de vida das pessoas. O reforço da credibilidade dos partidos e a sua reforma interna são passos fundamentais. Mas também é óbvia a necessidade de reconquistar a confiança dos cidadãos no papel dos partidos políticos e na representação democrática. Acredito que possa estar em causa o reafirmar do contrato social ou mesmo a sua reforma.

A terminar há três perguntas que deixo: porque será que apesar de toda a austeridade Portugal não conheceu movimentos assim? Será por isso que Portugal é um caso de sucesso na saída da bancarrota? Ou será porque Portugal é um caso de sucesso na saída da bancarrota que não há movimentos assim? 

P.S. - Seja qual for a decisão democrática na Grécia, é inaceitável que o FMI suspenda, à partida, a colaboração com este país como forma de chantagem eleitoral com os cidadãos gregos. O preço a pagar será, decerto, um extremar de posições e uma maior revolta da população contra as instituições internacionais. Se assim for será bem merecida mas, infelizmente, o pior para a Grécia.