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Opinião sem cerimónia

Miguel Sousa Tavares também dispara tiros de pólvora seca



Ao ler o artigo de Miguel Sousa Tavares (MST) no Expresso sobre "a vergonha da política externa portuguesa" pensei, por momentos, que lia mais um capítulo de um dos seus romances. Será que se enganou no destinatário e confundiu a sua editora com o jornal? É que ficção e jornalismo são dois estilos que convém deixar separados. MST mistura claramente ficção com a fixação que tem por Durão Barroso (DB). Uma grande amiga de educação alemã ensinou-me a expressão "Den wald vor lauter Bäumen nicht sehen", significa que falhamos o alvo quando estamos obcecados com uma particularidade

Ter opinião é uma coisa, deturpar factos e apenas destilar ódio a Durão Barroso varre pelo caminho um trabalho notável de centenas de diplomatas portugueses, membros de governo e alguns anónimos que construíram os últimos anos da diplomacia portuguesa. A sua raiva por Barroso leva-o a abater toda a diplomacia dos últimos vinte e cinco anos por base na visão turva que tem sobre um homem.

Miguel Sousa Tavares é um escritor brilhante, um analista corajoso. Mas, por vezes, quer saber mais do que os próprios intervenientes da história. É sintomático que, embora critique esquerda e direita, os ataques que fez estão centrados em Durão Barroso...

Vamos a factos. Para os comprovar basta ler um pouco de história e conhecer os textos diplomáticos que vão sendo tornados públicos.

Timor-Leste 

Timor-Leste: Foi com DB no Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) que, em 1992, que se iniciaram as consultas bilaterais Portugal-Indonésia sob a égide das Nações Unidas; DB participou nas primeiras quatro rondas de negociações com Ali Alatas e deu início ao processo de internacionalização/multilateralização da questão timorense que haveria de culminar, mais tarde em 1999, com a realização do referendo.

Enquanto MNE, Barroso deu instruções para que a questão de Timor fosse suscitada em todas as reuniões internacionais, em particular nas reuniões da UE com parceiros asiáticos. Não houve chancelaria, desde os EUA à Santa Sé, onde ele próprio não tenha suscitado este assunto, numa altura em que não era popular fazê-lo. Pretender que isto se resolveria em pouco tempo e minimizar os esforços que foram feitos de 1992 a 1995 - mas também por governos anteriores e posteriores - só revela duas coisas: má-fé e desconhecimento dos processos diplomáticos. O povo e os líderes timorenses não esqueceram esse contributo. E isso é que importa.

Angola 

Angola: Revela falta de informação ou memória selectiva omitir os sucessivos apelos feitos pelo governo português para que o cessar-fogo fosse respeitado e se evitasse o derramamento de sangue; revela má-fé ou memória selectiva ocultar os esforços feitos pela missão portuguesa em Luanda que, sob orientações do governo português, protegeu várias das figuras da UNITA. Mais uma vez também aqui o povo angolano e os líderes das duas partes não esqueceram o importante contributo que foi dado e isso é que importa.

Cimeira das Lages 

Base das Lajes: É sempre fácil fazer julgamentos a posteriori e lançar opiniões sentado no sofá sem ter a responsabilidade da decisão. A verdade é que existiam elementos de prova apresentados pelos nossos aliados - que depois se vieram a revelar infundados - que justificaram esta decisão. A verdade é que na altura Portugal tinha a seguinte opção: apoiar o seu aliado histórico (a Inglaterra), o seu aliado recente e pilar da NATO (EUA) e o seu vizinho (Espanha); ou manter-se neutro. Os factos apontavam num sentido, os nossos aliados estavam de um lado e o governo tinha de decidir com base, apenas, nos elementos que tinha. Mais uma vez é fácil comentar, mais difícil tomar decisões. Com as informações que temos hoje as decisões seriam seguramente diferentes.

Kosovo / NATO

Kosovo/NATO: O mais revelador da má-fé, desconhecimento ou apenas falta de rigor com que Miguel Sousa Tavares sustentou o seu ataque a DB. MST apresentou a acção militar da NATO no Kosovo como algo subsequente ao Iraque, quando na verdade teve lugar em 1999 e precede a intervenção no Iraque (2003) tendo sido apoiada (e bem) pelo anterior Governo socialista. Aliás muitos foram os especialistas que viram nessa acção no Kosovo (responsibility to protect) um precedente para proteger curdos e xiitas que, depois no Iraque, se encontravam também sobe ameaça do regime.  

Miguel Sousa Tavares comete três erros crassos: desacredita a acção de toda a diplomacia, deturpa a verdade sobre a acção de sucessivos governos de diferentes cores partidárias e desvaloriza o próprio país face aos seus parceiros internacionais. Como português ficaria envergonhado se o que MST aqui escreveu fosse verdade.

Curiosamente MST ataca Barroso naquele que é o seu ponte forte, a política externa portuguesa, e deixa na borda do prato aquilo que foi algum pragmatismo dessa mesma estratégia que em troca dos interesses de Portugal o fez esquecer algumas questões relacionadas com os direitos humanos como foi o caso de Angola.

Durão Barroso definiu as bases da política externa portuguesa 

Para se ter uma visão sobre a política externa portuguesa é preciso ter uma visão do mundo e conhecer as opções. No caso português, foi com DB aos comandos da nossa política externa, como Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros (SENEC) e MNE, que se definiram as opções mais estáveis e permanentes, algo descontinuadas por Guterres, recuperadas pelo próprio como PM e seguidas por Amado e Sócrates, da nossa acção diplomática. É justo recordar que se Barroso foi claríssimo a definir as prioridades da política externa portuguesa, África e Timor, curiosamente não foi tão determinante a desenvolver a participação na Europa porque essa já era uma prioridade portuguesa. Foi Barroso que definiu de facto aquilo que são hoje as bases da política externa portuguesa que vão muito para lá da Europa. Em relação ao Kosovo, a Africa, a Timor, ao Brasil, e ao posicionamento internacional da nossa política externa, estabeleceu uma linha política continua, expectável e coerente

No artigo que aqui escreveu há duas semanas, MST dá-se à morte pelo exagero. Se tivesse criticado DB pela sua falta de inovação na política europeia enquanto foi MNE ou PM português teria alguma aceitação, ou pelas relações discutíveis mas pragmáticas que desenvolveu com regimes menos recomendáveis, teria sido muito mais eficaz.

Há muito por onde criticar Barroso, mas estes tiros foram claramente mal escolhidos. São tiros de pólvora seca.