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Expresso

Opinião sem cerimónia

Avante Camarada Costa

Sócrates e Costa

O insurgente

Enquanto no Congresso do PS se afirma que é preciso um "programa sem preocupações orçamentais", o líder socialista italiano Matteo Renzi afirma em Roma que a preocupação orçamental não é apenas uma questão de respeitar a UE mas sobretudo uma questão de respeito com "os nossos filhos e as futuras gerações". Depois deste Congresso, o Novo PS parece-se mais com o PCP do que com os restantes partidos socialistas europeus. 

Escrevo esta crónica a partir de Roma, onde participo na reunião da COSAC em representação da Comissão de Assuntos Europeus da Assembleia da República. Neste âmbito tive a oportunidade de escutar, pela primeira vez ao vivo, o novo Primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, que nos primeiros meses do seu mandato tem a difícil tarefa de assumir a Presidência da UE.



Confirmo todas as características que lhe apontam: discurso diferente, linguagem próxima das pessoas, muito pragmatismo nas ações, popular mas não populista, socialista mas não irresponsável. Apreciei a sua postura, sobretudo porque é um socialista diametralmente oposto de Hollande, mais próximo de Valls e a léguas dos seus colegas que agora lideram o PS português. Espero que não me venha a desiludir. 

PS português tem medo de assumir as suas ideias

Enquanto o PS português tem medo de assumir alterações arriscadas ou pouco populares, Renzi, tal como Valls, vai ao combate e assume decisões difíceis. Demonstrou esta sua postura recentemente no caso do debate sobre os imigrantes ilegais. Reconhece que a Europa, e Itália, não podem assumir uma "imigração selvagem" mas que é preciso um esforço conjunto para acolher os que, de facto, chegam e ajudar os outros na origem, permitindo que tenham as condições necessárias para permanecer nos seus países.

Renzi defende rigor orçamental por respeito pelas novas gerações  

Quando o PS português, no seu congresso, afirma que é preciso um programa "sem custos orçamentais",  Renzi diz em Roma que é preciso colocar as contas em ordem, não apenas para respeitar a UE e os acordos assinados, mas sim para "respeitar os nossos filhos, as novas gerações"... Sim, é o mesmo que o PSD e o Governo dizem em Portugal.



Estranho também que no Congresso do PS se alegue que o Governo não tem uma política pública de emprego, mas que ao mesmo tempo os seus dirigentes critiquem a existência de empregos pagos com "subsídios de desemprego". Alguns  acusam mesmo o Governo de mascarar a subida dos números da criação de emprego com o recurso a pagamentos de estágios e apoios ao empreendedorismo. Afinal há política pública de apoio ao emprego ou não? Decidam-se.

Costa propõe combater o populismo juntando-se a ele

O discurso de encerramento de António Costa podia ter sido feito pelo Papa ou outro líder religioso. Um conjunto de frases bonitas que ficam bem em qualquer livro de retórica política. Costa quer ganhar, mas não quer governar. Quer alianças à esquerda porque não quer dar razão aos populistas, mas prefere coligar-se com eles. É a sua forma de combater: "Se não os podes vencer junta-te a eles".



António Costa critica os que criam instabilidade política, mas manda os seus mais próximos exigir eleições antecipadas. Pede menos impostos para os portugueses mas aumenta-os em Lisboa. Critica o aproveitamento político de alguns casos mas não hesita em fazer uso desse mesmo instrumento ao colocar o nome das vítimas de violência doméstica no meio do Congresso do PS, suponho que sem autorização dos seus familiares. 

PS anuncia próxima bancarrota 

Mas o discurso teve outras pérolas bastante poéticas, umas inspiradas por Alegre e outras pelo novo doutrinador da esquerda, qual sucessor de Boaventura, Sampaio da Nóvoa. Deixo-vos algumas, pois a poesia foi feita para ser partilhada: "pior que os cortes na saúde, na educação ou nos salários, foi o corte na esperança de cada português e na confiança no futuro de Portugal"; ou "Que esta não é a primeira crise que o país enfrenta" - pois, os portugueses já estão habituados a crises provocadas por governos socialistas.



E despediu-se evocando a restauração da independência, "a data primeira sem a qual nenhuma outra existiria". A coisa promete e Antonio Costa parece já anunciar a próxima crise. É normal, qualquer socialista que se preze quer ficar na história ao lado de Soares e Sócrates. O clube da bancarrota.



Mas Costa tem a agravante de, até às eleições, tudo fazer para esconder que tudo o que ele politicamente quer ser, Sócrates já um dia o foi. E todos nós sabemos qual foi o resultado. O País não aguenta dois Sócrates. 



Não foi Renzi nem Valls que meteram o socialismo na gaveta, parece ser o PS que, afinal, confunde cada vez mais comunismo com socialismo. Costa apesar de ser "Mayor" como Renzi foi, é mais Hollande que outra coisa.