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Expresso

Opinião sem cerimónia

Até Cuba já mudou. Só falta a Coreia do Norte e o PCP

O fim do embargo a Cuba retira o pretexto ao discurso populista da esquerda sul americana, reforça o papel dos EUA na região, confirma o fim do mito Castrista e permite caminhar lentamente para a democracia. Será? 

A política externa de Barack Obama tem somado mais desilusões que vitórias. Contudo, alguns destes sucessos marcam verdadeiras viragens na história das relações internacionais. Ao longo dos últimos 18 meses as autoridades diplomáticas americanas, canadianas, cubanas e do Vaticano, conseguiram de forma discreta um "milagre de Natal" que poucos achavam possível: o fim do embargo político a Cuba, pois o embargo económico terminará como consequência natural.

Representação viva do mito bolivariano 

Cuba pode não ser um player mundial determinante, ou representar sequer uma ameaça política, militar ou económica, mas simbolizava antes a luta americana contra o comunismo e contra a ditadura e, do lado de lá, também uma marca inspiradora de resistência à economia de mercado, à iniciativa privada, ao ocidente, à liberdade, mas inspiração também para o socialismo e populismo mais radical que tem alastrado pela América latina. Cuba tem sido, para muitos, uma representação viva da visão mais genuína do mito bolivariano. 

À custa do sacrifício e da pobreza dos seus cidadãos, a quem o conceito ocidental de cidadania nem se deveria aplicar, Cuba tentava ser uma espécie de representação "Lego" ou Portugal dos pequeninos" para representar o ideário comunista/socialista em que todos vivem em torno do apoio e ação do Estado central e sob comando de um homem providencial, não eleito, mas sim imposto por forte pressão político-militar.

Fim do mito Castrista abriu caminho 

O diminuir da credibilidade de Fidel Castro, amiúde rotulado de despesista e amante do luxo por diversos ex colaboradores, tem permitido acelerar a mudança e legitimar a abertura revelada pelo seu irmão e sucessor, Raul Castro. Cuba tende a ser cada vez menos uma espécie de presépio e local sagrado para férias "retro" à medida dos anos 40, e cada vez mais uma sociedade dita "normal", com iniciativa privada e mais alguma liberdade. 

Os populistas, socialistas, líderes de alguns regimes neo-ditatoriais como a Venezuela, Bolívia, ou Equador, ou outros de inspiração semelhante mas já rendidos ao capital como o Brasil ou Argentina, olhavam para Cuba como depósito das suas convicções ideológicas, que ficava sempre bem citar ou usar como exemplo de resistência aos abutres do ocidente, ficam agora sem a nau de inspiração ou Arca de Noé ideológica.  

Cuba deixará de ser o mártir útil  

Com o fim do embargo Cuba não deixa de ser comunista. Não irá para eleições, nem irá escolher outro Presidente. Cuba não irá dar mais liberdade de circulação aos seus habitantes, nem a pobreza vai diminuir. Mas a América Latina vai deixar de ter um mártir na sua família, símbolo da suposta opressão americana e ocidental a um regime cheio de virtudes que justifica um sem número de discursos populistas e saudosistas da doutrina de Simon Bolívar mas que muitos seguidores meteram na gaveta. Cuba vai mudar...devagarinho. 

Aliás, vários problemas se começam já a colocar, tal como nota o New York Times através de um artigo de Frances Robles. Nele se revela que os proprietários americanos confiscados após a partida de Fulgêncio Batista, terão agora a oportunidade para reclamar as suas terras de volta. Outros, americanos-cubanos resistentes do regime cubano a viver no estrangeiro, criticam Obama por estar a passar uma esponja sobre anos de ditadura e atrocidades. Como cantava Phil Collins: both sides of story...

Três líderes fazem história 

Obama, o Papa Francisco e Raul Castro, têm já o seu dedo na história. Corrigem um erro de décadas que para muitos não era uma prioridade, e que consecutivamente serviu de "calçadeira" para muitos boicotes políticos, de parte a parte. Mas é simbólico. Traduz o pragmatismo que tem marcado a ação do Papa Francisco e a política de "coelhos da cartola" que tem sorrido a Obama. De facto, num mandato de ações falhadas no Iraque, em Guantanamo e no Afeganistão, a Administração Obama pode orgulhar-se de ter eliminado Bin Laden e terminado o embargo a Cuba. Sempre de surpresa, com enorme impacto mundial. Mas assim também se escreve a história. Como ontem aqui dizia Diogo Agostinho, a atribuição do Nobel da Paz a Obama foi um exagero mas o presidente americano tem agora feito por merecê-lo.

Curiosamente, Bernardo Pires de Lima na sua crónica habitual aponta outra tese, menos "romântica", talvez mais realista, que aponta como objetivo de Obama o aproveitar da falência da Venezuela e a recessão no Brasil - dois pilares do castrismo - para fazer de Cuba no Atlântico o que está ser feito com a Birmânia no Índico. Veremos.

Francisco como João Paulo II 

Francisco, o Papa que contraria a tradição das elites do Vaticano, e que busca inspiração nos missionários e nas "bases" da igreja, revela mais uma vez que o seu carisma e exemplo ajudam a derrubar barreiras e muros ideológicos. Tem sido assim no diálogo ecuménico, na aproximação entre leigos e a igreja, mas também no triunfo da simplicidade, solidariedade e da frontalidade sobre a luxúria, o egoísmo e o snobismo. Agora, graças à sua capacidade de influência - só possível graças ao seu carisma e estatuto - conseguiu derrubar mais um muro, que apesar das diferentes dimensões, nos fez recordar a ação de João Paulo II na queda do muro de Berlim.

Queda dos muros ideológicos no Avante e em Pyongyang 

Curiosamente a queda destes dois muros parece incomodar os comunistas mais ortodoxos, com os comunistas portugueses à cabeça, que no aniversário da queda do muro alemão não esconderam o seu repúdio à celebração em Berlim. Acredito que o restabelecer das relações entre os EUA e Cuba também não lhes seja muito útil ao seu discurso contra a economia de mercado, contra a iniciativa privada e pelo isolamento precário.

Nesse sentido, quem cada vez mais está sozinho é simultaneamente Pyongyang e a planície do Avante em Portugal. Haja fé que os tempos de mudança também cheguem aos nossos conterrâneos do PCP. Formariam, sem dúvida, um importante contributo para a normalização da política portuguesa. 

P.S. Este artigo foi alterado pelo autor às 17:00 h de hoje.