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Quando a culpa não é “do Passos”, é dos jornalistas

Afinal a culpa das tragédias de 2017 não é de Pedro Passos Coelho, nem das condições meteorológicas, nem sequer das irresponsáveis alterações nos comandos da Proteção Civil. Também já não é dos eucaliptos, nem do SIRESP, nem da má gestão dos meios aéreos, nem do mau planeamento da época de fogos, nem mesmo da falta de limpeza das florestas. Segundo António Costa, agora a culpa é toda dos jornalistas que não “anunciaram as medidas para limpar a floresta”.

No regresso do seu estilo Trumpista quiçá Socrático, António Costa voltou a ter mais uma tirada irresponsável e cobarde a propósito da cobertura que a imprensa portuguesa fez das tragédias de 2017.

Ora, como todos sabemos, se não fosse o trabalho de investigação da imprensa, hoje não estaríamos a par daquilo que o Governo tentou esconder da opinião pública e dos partidos da oposição que, desde maio de 2017, questionam o governo e, em particular, o Ministério da Administração Interna pelo mau planeamento da época de incêndios de 2017.

Os portugueses podem pois agradecer à imprensa termos ficado a saber que a escassos meses da mais difícil época de incêndios de que há memória, em que todos os dados do IPMA previam as piores condições, o Governo liderado por António Costa decidiu despedir experientes comandantes distritais da Proteção Civil para os substituir por boys do aparelho socialista com parca experiência de terreno. Foi também graças à imprensa que soubemos que António Costa permitiu mudar 20 dos 36 comandantes distritais (CODIS e 2º CODIS), sendo que 17 foram “mexidos” a dois meses do início da “época”, com a entrada de “caras novas ou com a mudança de posição de membros da ANPC mais experientes” como referiram o Público (29.06.2017) e o Expresso (24.06.2017).

Foi também António Costa que decidiu substituir o então presidente da ANPC, Grave Pereira, pelo seu amigo e ex colaborador na Câmara de Lisboa, Joaquim Leitão com os resultados que se conhecem. Foi este amigo do Primeiro-Ministro que correu com o então respeitado CONAC, José Manuel Moura, para entregar o lugar ao incompetente boy do Partido Socialista de Castelo Branco, Rui Esteves, com os resultados que também já conhecemos.

Graças ao “péssimo” trabalho da imprensa portuguesa ficámos ainda a saber que Governo e a ANPC decidiram desmantelar a estrutura de coordenação intermédia de comando da proteção civil afastando das suas funções os chamados Comandantes de Agrupamento Distrital (CADIS), cuja missão era tão determinante na gestão do ataque ampliado aos grandes fogos e dos meios ao nível regional.

Foi também graças à “má imprensa” portuguesa que conhecemos todas as peripécias em torno do SIRESP, informação raramente revelada aos portugueses e ao Parlamento.

Foi graças à “má imprensa” portuguesa que os portugueses se aperceberam do total colapso da estrutura da proteção civil no fogo de Pedrogão.

Foi também graças à “má imprensa” portuguesa que os portugueses ficaram a saber que apesar dos diversos alertas dos Comandantes Distritais, autarcas, Deputados e especialistas do sector, para antecipar e estender a fase Charlie, o Governo optou por

manter tudo como estava. Recordo que as tragédias de Pedrogão e de 15 de outubro ocorreram antes e depois da fase Charlie.

Foi também graças à “péssima imprensa” portuguesa que ficámos a saber que, apesar dos pedidos e alertas dos Comandantes e da própria ANPC, o governo fez um veto de gaveta e recusou estender os contratos dos meios aéreos para lá da fase Charlie.

Foi graças ao “péssimo” trabalho da imprensa portuguesa que ficámos a saber que o Governo ignorou os avisos do Instituto Português do Mar e da Atmosfera que antecipadamente avisou que nos dias das tragédias as condições atmosféricas previstas eram muito adversas e exigiam medidas extraordinárias para evitar problemas como os que ocorreram.

Deve ter sido também por culpa da imprensa que os militares não receberam os equipamentos de proteção anunciados pelo governo, que muitos bombeiros não receberam as prometidas refeições para as primeiras 24 horas e que o governo se atrasou na reposição do equipamento danificado dos bombeiros.

Será que também foi a imprensa portuguesa que nas horas mais críticas desviou meios terrestres e aéreos, à revelia e contra a opinião dos comandos distritais e locais, apenas por conveniência pessoal e política?

Terá sido também a imprensa portuguesa a responsável por não haver um acordo de “regime” para fazer uma profunda reforma na floresta, uma aposta realista na gestão do território e um verdadeiro combate ao despovoamento do interior do país?

Será que também foi a imprensa portuguesa que decidiu ir de férias após a primeira tragédia que ocorreu em Pedrogão?

Tragédias desta dimensão não responsabilizam apenas o governo, mas pendem sobre a cabeça de todos nós, mesmo sobre aqueles que têm tentado mudar o rumo das coisas. Quando falhamos, falhamos todos, o pior nestes momentos é mesmo a cobardia dos que tentam desviar as atenções da sua incompetência e da sua irresponsabilidade.