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Expresso

Centeno no Eurogrupo… com a agenda de Passos Coelho

Sempre que um português é escolhido ou eleito para um cargo de responsabilidade internacional os double standards da política portuguesa revelam-se assim: se for de direita significa uma traição ao país, o cargo não presta ou é controlado pelos alemães e pelo grande capital; se for alguém de esquerda então vai estabelecer a paz e mudar o mundo ou então reformar o euro, acabar com a ortodoxia financeira europeia e resolver as desigualdades na Europa.

A eleição de Centeno para Presidente do Eurogrupo é boa para Portugal e vem reconhecer a indiscutível recuperação de Portugal e dos portugueses desde 2011 até hoje. O que a esquerda ainda não percebeu, por mais que isso lhes custe a aceitar, é que a escolha de Centeno representa o corolário de reconhecimento de que a estratégia da UE e da troika para Portugal teve sucesso e o esforço dos portugueses valeu a pena.

Portugal está hoje melhor e os portugueses também estão bem melhor do que estavam em 2011.

O Ministro das Finanças português pode ser Presidente do Eurogrupo porque Portugal reduziu o seu défice de 12% para menos de 2% em 7 anos, o país saiu da recessão e desde 2014 que Portugal cresce todos os anos (0,9% em 2014, 1,6% em 2015 e 1,58% em 2016), o desemprego cai de um máximo de 15% em 2012 para 11,1% em 2016 (dados Pordata).

Mário Centeno teve o mérito de conseguir cumprir o Tratado Orçamental apesar de ter na coligação que o suporta dois partidos que rejeitam tal Tratado. PCP e BE foram engolindo sapos atrás sapos e Centeno foi mostrando resultados a Bruxelas. Para tal contou com a benevolência e uma flexibilidade inédita da Comissão Europeia, cumpriu o Plano B de austeridade que nunca reconheceu por cá, mas que implementou muito à custa de aumento da carga fiscal, de cortes na saúde e sobretudo no investimento público. Centeno contou ainda com o oxigénio que o programa de compra de dívida do BCE lhe garantiu, resta saber até quando. Não fez as devidas reformas estruturais, mas contou com as que herdou e que lhe deram margem para “gastar alguma chapa”.

Quanto à agenda de Mário Centeno para este mandato no Eurogrupo esta é clara e simples, resta saber se António Costa e a “geringonça” estão preparados para a enfrentar.

Vejamos então.

O Partido Socialista tem de decidir qual o cenário que quer assumir: se Centeno é só o “porta-voz do Eurogrupo” e que define apenas a agenda de um “conselho informal”, o que o desresponsabiliza em parte das consequências, ou falta delas; ou se tem mesmo imenso poder para reformar a zona Euro e aí também terão que assumir todas as consequências do que acontecer na união económica e monetária.

Não dá para ficar apenas com os louros, se os merecer, e rejeitar os fracassos caso venham a acontecer. É bom que isto fique bem claro.

Mas a maior curiosidade desta eleição é o facto de Mário Centeno e o Eurogrupo terem como missão para os próximos anos parte da “agenda” que Passos Coelho apresentou no célebre discurso de Florença e que, entretanto, António Costa, e bem, veio a assumir como “proposta portuguesa” para a reforma da União Económica e Monetária.

Falta completar a União Bancária, em particular o mecanismo europeu de garantia de depósitos, mas concretizar sobretudo o orçamento próprio para a zona euro com recursos próprios e programas específicos para financiar reformas estruturais, ou criar o “FMI Europeu”, propostas hoje praticamente consensuais na Europa e que cabe a Centeno saber concretizar.

O Ministro das Finanças português agradou a Bruxelas porque, afinal e só aparentemente, não se desviou assim tanto como se esperava do rumo que herdou. O mais difícil estava feito. No fundo cumpriu o défice e manteve o crescimento, até agora.