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Expresso

Se até Marcelo pode votar em Celorico…

Sabia que há milhares de famílias que vivem no interior do país e que não conseguem votar nos concelhos que os acolhem há vários anos? Há também cidadãos estrangeiros que vivem no interior e que votam cá, mas há também emigrantes portugueses que regressaram e que não o conseguem fazer? No entanto o Presidente Marcelo vota em Celorico de Basto apesar de viver em Cascais.

Já é recorrente em todas as eleições, sobretudo no interior, encontrar pessoas que habitam nos nossos concelhos, mas que votam em cidades diferentes. Milhares de portugueses decidem gozar a sua reforma nos concelhos de origem, ou onde alguns casaram ou onde decidiram viver após toda uma vida de trabalho. Essas pessoas representaram verdadeiro “ouro” para a vida de determinados concelhos do interior.

Nesta campanha voltei a encontrar muitos, mas que na sua maioria continuam a votar em Lisboa, no Barreiro, em Loures, etc, mas que usufruem, e bem, de serviços, apoios e de todo o tipo de programas que as autarquias do interior proporcionam. Muitos, apesar de já terem residência praticamente permanente nestas aldeias, mantém o registo no litoral ou porque são obrigados porque têm um empréstimo, um abono ou para garantir acesso aos hospitais em Lisboa ou no Porto. Outros, como muitos da minha geração, mudaram o local de recenseamento assim que tiraram o cartão do cidadão. Apesar de na maioria dos casos o desejarem não conseguem votar nos concelhos onde normalmente habitam ou com os quais têm mais laços familiares e sentimentais.

Curiosamente reparei que o nosso Presidente da República foi votar a Celorico de Basto porque é aí que tem raízes e onde tem grandes laços familiares e sentimentais. Foi com enorme agrado que todos o ouvimos dizer "É natural que venha votar onde tenho raízes e onde estou recenseado e, portanto, não mudo pelo facto de ser Presidente da República".

Penso que esta situação pode abrir um novo debate sobre o modelo de recenseamento eleitoral e que deve ser visto como oportunidade para imensos concelhos do interior do país. Não é por acaso que abstenção é maior nas grandes cidades. É recorrente ver o orgulho com que muitos “filhos da terra” regressam ao berço para votar nos domingos eleitorais.

Tenho a certeza que abrir esta possibilidade de votar onde se escolhe e onde se tem raízes ou laços familiares possa ser mais um bom contributo para combater as dificuldades destes concelhos.

O financiamento estatal às autarquias depende muito do número de eleitores registados em determinado concelho do país e se em Lisboa ou no Sintra, mais 500 ou menos 500 eleitores não significa muito, em concelhos como Mação, Sardoal ou Vila de Rei, pode fazer uma grande diferença.

É cada vez mais habitual encontrar estrangeiros a votar nas nossas aldeias e verificar que portugueses que fizeram a sua vida no estrangeiro ou no litoral, estão impedidos de o fazer na sua casa, na sua freguesia e no seu concelho.

Se o Presidente da República consegue votar em Celorico de Basto, era muito importante que mais gente também o pudesse fazer.

Este texto não é uma critica mas sim um desafio para encontrar uma solução que traga mais algum equilíbrio a um país que está “tombado” para o litoral e onde as autarquias do interior fazem um enorme esforço para garantir o povoamento e combater a desertificação.