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Expresso

Afinal a quem tremem as pernas?

A semana passada ficou marcada por dois episódios protagonizados pela coligação governamental que tiveram uma característica comum face às expectativas iniciais criadas: tremeram a pernas ao PS, BE e PCP.

A frase que tornou famoso o actual "Secretário-Geral da Geringonça", Pedro Nuno Santos, "vamos fazer tremer as pernas aos banqueiros alemães" merece ser recordada face à meiguice do "Relatório da Dívida" e à genuflexão perante Espanha a propósito de Almaraz.

Em ambas as situações, as posições finais da coligação de esquerda face à "ferocidade" inicial com que abordaram os assuntos obrigam-me a recordar o dito popular "entradas de leão, saídas de sendeiro".

Há poucas semanas, já Mourinho Felix protagonizara situação ainda mais ridícula, quando fez "peito" a Dissejbloom para as Tv"s mas que depois "aninhou" como um gatinho à mesa do Eurogrupo. Foram as pernas que tremeram?

O governo, com o apoio dos partidos de esquerda, resolve todos os assuntos com duas soluções, ou atira dinheiro para cima dos problemas ou cria um grupo de trabalho. Assim adia o que não pode resolver mas que é vital para manter a solidariedade do PCP e do BE sem que estes pareçam perder a face perante os seus eleitorados. Depois apresentam umas conclusões, quando as apresentam, e atiram para o próximo mandato a resolução das questões suscitadas. Pelo caminho, entretêm os descontentes, promovem o diálogo e alimentam a imprensa com ideias que depois não chegam a ver luz do dia.

A estratégia é velha mas parece continuar a resultar.

Quanto ao Relatório do Dívida tem três características: hipócrita, porque propõe o que o governo anterior já fez e que os "economistas inteligentes do regime" criticavam, falo da renegociação de maturidades, de juros e a antecipação de reembolsos; Irrealista, porque dá como solução um conjunto de medidas que ou não dependem de Portugal ou já foram rejeitadas por quase todos os países europeus; fraudulento, porque no fundo não propõe nada daquilo que o Bloco, PCP e alguns destacados membros do PS anunciaram como bandeira eleitoral, a famosa renegociação da dívida, ou o não pagamos. Ou seja, afinal não incluíram a bomba atômica. Tremeram-lhes as pernas?

Pelos vistos só têm coragem para afrontar o Banco de Portugal e o Conselho de Finanças Públicas, duas das poucas instituições públicas que ainda não fazem fretes ao governo. A independência e pluralismo continua a ser um problema sempre que a esquerda chega ao poder.

Na questão de Almaraz a receita foi semelhante ao flop do relatório da dívida.

Governo e partidos da esquerda radical encheram a comunicação social e a opinião pública, ameaçaram processar Espanha, arregimentaram os seus Deputados e Eurodeputados para aderirem à causa, tiveram a oposição ao seu lado, simularam grandes divergências públicas com o governo espanhol, e no fim temos o Ministro do Ambiente português, qual advogado de defesa do homólogo espanhol, a dizer que "está muito descansado" com o projecto que permite o prolongamento da vida da central de Almaraz que segundo o nosso "simpático" Ministro "é feito com as melhores técnicas disponíveis e que no seu normal funcionamento não levanta qualquer sobressalto”.

Será que também tremeram as pernas ao Ministro que quase ameaçou invadir Espanha por causa da Central?

Depois temos o Bloco e o PCP a fazer algumas críticas, a divergir para não perder a face como sempre fazem, fazendo os portugueses de tolos. Se isto fosse realmente prioritário, Bloco e PCP tomavam uma posição diferente, não faziam apenas de conta que discordam da posição do Governo. Apesar de estarem apenas no Parlamento, Bloco e PCP são "governo", são tão responsáveis politicamente como o PS pelas virtudes e defeitos da governação.

Será útil que, daqui para frente, olhemos com maior atenção para comparação para aquilo o governo anuncia e o que acaba por fazer.