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Expresso

Extrema-esquerda com Le Pen e impasse à vista em França

As primeiras reações aos resultados eleitorais franceses confirmam aquilo que há muito dizíamos sobre a agenda política da extrema esquerda e da extrema direita. Têm mais pontos em comum do que diferenças e é sintomático que o único candidato que na noite eleitoral não declarou o seu apoio a Macron tenha sido o candidato da extrema esquerda francesa, apoiado em Portugal pelo Bloco de Esquerda.

Não vale a pena negar ou justificar o não apoio imediato com o tempo para ouvir os militantes. Não é suficiente argumentar que Macron tem posições mais ou menos liberais ou que é responsável pela política de austeridade. É verdade que Macron personifica as poucas reformas estruturais dos anos de Hollande, as tais que causam "arrepios" a António Costa, tal como a lei Macron que tanta contestação mereceu e que previa uma profunda reforma no mercado laboral. Mas há uma linha vermelha que separa, ou deveria separar, posições racistas e xenófobas de todas as outras. Quando se discute xenofobia, racismo ou direitos humanos, não há política monetária, financeira, laboral ou europeia que se intrometa.

A hesitação de Mélenchon e da extrema esquerda neste assunto é reveladora que, tal como temos vindo a dizer, ambos os extremos da política tem uma agenda comum, são anti-globalização, anti-comércio internacional, anti-direitos com deveres, são isolacionistas e nacionalistas. São todos radicais e votam nas mesmas questões. Apenas se separam nas questões da segurança e de migrações, em tudo o resto assumem sem hesitação a agenda do populismo e do radicalismo.

Os diversos relatos de militantes da extrema esquerda francesa, alguns até de origem portuguesa, que nesta campanha apoiaram Le Pen não nos deixam dúvidas que as agendas coincidem na generalidade dos pontos.

É muito provável que, face à pressão do interna mas sobretudo internacional, o principal partido da extrema-esquerda francesa se sinta encurralado e venha a apoiar Macron, mas esta hesitação é um espinho encravado na ética e moral da extrema esquerda francesa e europeia. Curiosamente, o Primeiro-Ministro grego, Tsipras, veio a correr apoiar Macron em defesa dos valores europeus, sim dos valores europeus, mas talvez fosse mais útil ligar o seu "aliado" francês (Mélenchon) no sentido de o convencer a não apoiar Le Pen.

Entre Macron e Le Pen não pode haver qualquer dúvida ou hesitação. Ou estamos contra o racismo, contra xenofobia e contra o nacionalismo ou estamos a favor. Ficar a meio da ponte é ser conivente com Le Pen.

Macron representa o apoio a uma sociedade aberta, tolerante, contra os extremismos de esquerda e de direita e a favor do projecto europeu.

Sairá vencedor o candidato que melhor conseguir levar os seus a votar, a federar o seu eleitorado mas também aquele que mais conquistar os eleitores dos derrotados na primeira volta. Le Pen parece piscar o olho à extrema esquerda e eles gostam.

Seja qual for o resultado final, importa avaliar o contributo de Hollande quer para a subida de Len Pen, quer para o desastre do Partido Socialista francês. Macron, com todos os seus defeitos e virtudes, tornou-se para muitos como um mal menor. Veremos se consegue contrariar o epíteto de cata-vento ideológico, que tanto agrada a "patrões" com o seu discurso liberal, como pretende agradar à esquerda com as suas preocupações sociais. Será Macron uma lufada de ar fresco na política francesa e europeia, ou apenas mais um Hollande ou um Renzi que se revelaram verdadeiros flops com custos gravíssimos para a democracia?

Agora é tempo de evitar a vitória de Le Pen. Logo após a segunda volta haverá legislativas em França que podem ser uma verdadeira lotaria. Criar uma coligação maioritária na Assembleia Nacional será o primeiro grande desafio, bastante difícil face aos acordos já existentes entre PSE e Verdes, à incerteza das deserções entre os candidatos socialistas e o novo partido de Macron, sem esquecer a mais que provável aliança dos Republicanos com a UDI (centro ex Bayrou) que pode até vencer as eleições legislativas se encontrar a tempo um líder que que una o partido de Fillon.

Prevêem-se tempos difíceis e incertos em França mas também no resto da Europa.