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Expresso

Trump abre a porta da maioridade à União Europeia?

Durante demasiados anos a UE assumiu-se como gigante económico apesar de raramente ter saído de dentro do seu fato de anão político internacional. Na política externa, contam-se pelos dedos de uma mão as vezes em que a União Europeia assumiu a liderança da agenda internacional, em que marcou o ritmo, usando a sua influência política e económica para decidir os destinos do mundo. Tanto na política de defesa como na política externa ou no comércio internacional a Europa sempre seguiu a par ou ligeiramente atrás dos EUA - sempre e sob o carril da agenda individual dos principais Estados Membros, leia-se a agenda francesa ou britânica. A esse respeito, importa lembrar que a única agenda externa que a Alemanha considera é a do comércio internacional, à exceção da Ucrânia, no resto é um anão político inferiorizado ou beneficiado, dependendo do ponto de vista, pela sua ausência do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Vem isto a propósito do recente encontro entre Trump e Merkel e de um ponto - talvez o único até agora - onde considero que o novo Presidente está cheio de razão: a Europa tem que pagar a sua defesa, não pode continuar a viver ao colo da NATO e à sombra do investimento dos EUA. Nesse sentido, esta pode muito bem ser a oportunidade para a Europa atingir a maioridade, para poder sair de casa sem a tutela militar americana. Resta saber se a opinião pública europeia está preparada para assumir os custos financeiros e humanos desta responsabilidade. Tenho as minhas dúvidas.

A propósito das relações transatlânticas, na semana passada tive a oportunidade de, a propósito da reunião da Comissão das Migrações do Conselho da Europa que reuniu em Baku, no Azerbaijão, assistir ao Baku Global Fórum que reuniu, entre outros, 150 antigos e actuais primeiros-ministros e 50 ex e actuais Presidentes, além de outras estrelas internacionais, desde África à América Latina, Europa e ex URSS, cujo tema principal foram as relações transatlânticas. De todos os oradores que tive oportunidade de ouvir e conhecer, o mais desarmante e surpreendente foi Edward Luttwak, académico americano de origem romena, conselheiro de vários ex Presidentes americanos em matérias de estratégia e defesa, e que colabora actualmente com Donald Trump. Acabado de regressar da Rússia, onde se terá encontrado com vários dirigentes do regime soviético sob mandato da Administração Americana, não hesitou em revelar, aos cerca de 500 participantes na Baku Global Fórum, que o objetivo de estratégia de Donald Trump é "combater a crescente influência da China na economia internacional, nem que para isso seja necessário um acordo com Vladimir Putin". O problema de Trump não é a Europa, a Rússia ou o Médio Oriente, é a influência galopante da China e o impacto que isso tem, não no mundo, mas na economia interna americana.

Ora, foi precisamente isso que Teresa de Sousa deu a entender no seu artigo publicado pelo “Público” no passado fim-de-semana. A estratégia de Trump começa a ser clara, o objectivo não é minorar ou ignorar a Europa e sim impedir a crescente influência global da China ,custe o que custar, nem que isso obrigue a uma aliança estratégica com a Rússia de Putin e divergências graves com a UE.

Os dados estão lançados e cabe agora à Europa decidir o seu futuro. Além dos cinco cenários apresentados pelo livro branco de Juncker, que assentam sobretudo na evolução económica e institucional, cabe à União Europa decidir que papel quer desempenhar além fronteiras: quer jogar o jogo de terceiros ou decidir que jogo disputarão os outros?

É este o ambiente criado pelas circunstâncias, empurrado pela realidade Europeia e proporcionado pelo novo desenho do alinhamento estratégico da Casa Branca. O momento da Europa assumir as suas responsabilidades na geopolítica é este, quer por necessidade quer por oportunidade, não há margem nem tempo para hesitações ou titubeações. Ou a Europa se assume agora como actor político liderante ou jamais passará de anão político global.