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Expresso

Nem o rio Tejo salvamos? 

Não são apenas empregos, é a vida das pessoas que está em jogo.

Infelizmente o problema da poluição do rio Tejo não é novo, não é estranho às instituições públicas nem as suas causas desconhecidas de todos nós. Poucos temas como o ambiente, e este do rio Tejo em particular, são capazes de unir tanto as diferentes forças políticas, as diversas instituições públicas, a população em geral e parece que, nem assim, com tamanho consenso político, somos capazes de salvar o rio Tejo dos prevaricadores. É um grave sinal de impotência pública que nos deve preocupar a todos.

Escrevo com um misto de preocupação e frustração. É a saúde pública que está em causa pois são cada vez mais frequentes os alertas sobre o estranho número de mortes causadas por problemas cancerígenos em comunidades próximas do rio, são as espécies de peixe que surgem numa constante mutação que nos inquieta. É um rio que ora esta verde, ora castanho, que por vezes até parece tingido a vermelho e que raras vezes é azul ou transparente.

Pequenos heróis vão surgindo, anónimos, que recorrem a vídeos e fotografias que as as redes sociais e a imprensa propagam à procura de quem os ouça. Aproveito este texto para destacar um deles, o Arlindo Consolado Marques, guarda prisional que nas suas horas vagas investe as suas poupanças em equipamento e combustível para diariamente chamar a atenção do Ministério do Ambiente, das forças policiais, dos deputados, dos autarcas, de todos nós, para as constantes agressões ao rio.

Algumas pessoas apenas fazem as contas às centenas de postos de trabalho que algumas empresas poluidoras empregam. Apetece perguntar: e as centenas de famílias de pescadores que de Idanha-a-Nova a Lisboa vivem do que pescam no rio? E as centenas de restaurantes que ficam vazios porque não há peixe ou porque os clientes desconfiam da sua qualidade? E as hortas e outras explorações agrícolas que são regadas com água do rio Tejo? E os milhares de animais que bebem esta água? É toda uma cadeia alimentar que é afectada. São milhares as famílias que ao longo do rio podem ser afectadas pela poluição que alguns criminosos deitam diariamente no rio.

Não escrevo hoje para acusar a empresa A, a B ou C, serão várias, umas mais culpadas do que outros. Escrevo sim como grito de alerta. Não me resigno e jamais desistirei deste combate. Escrevo com a consciência que tenho feito, tal como alguns colegas de diferentes partidos, aquilo que está ao meu alcance para resolver o problema. Até hoje quase em vão.

Será que não somos capazes, como comunidade, como Estado de acabar com esta poluição? Já não vivemos no séc XIX onde está situação até seria "normal", temos hoje outros meios de fiscalização, outra tecnologia, outro conhecimento, há consenso político e nem assim conseguimos fazer melhor? É frustrante.

A aparente complacência das autoridades por omissão parece cada vez uma realidade e isso, perante o povo, também desacredita o Estado, as sua instituições e o sistema político.

A falta de caudal do rio Tejo não serve de desculpa pois apenas revela com mais impacto aquilo que lá é depositado. Se o rio corresse sempre cheio como antigamente toda a porcaria passaria debaixo do nossos nariz sem nos apercebermos. A culpa da poluição não pode ser apenas assacada à água que os espanhóis retiram do rio. A culpa é muito portuguesa e tem vários nomes, basta ver os relatórios da Agência Portuguesa do Ambiente.

São vários os autarcas, nem todos com o mesmo empenho, deputados ou governantes que tem procurado resolver este problema em vão. Também não deixa de ser preocupante a postura de algumas organizações ambientalistas cujo silêncio também estranhamos e cuja acção, pela sua experiência e credibilidade, poderia ser fundamental.

Os danos para o ecossistema são terríveis. Cada dia que passar sem parar esta gangrena será ainda mais fatal.

Ainda esta semana o jornal “El País” publicava um estudo da revista “Nature Ecology & Evolution”, que encontrou níveis altíssimos de substâncias contaminantes que já não são utilizadas pela indústria há duas décadas e que ainda hoje são encontradas em espécies que vivem em fossas oceânicas a 11 mil metros de profundidade. Mais alarmante é saber que algumas destas espécies viviam a sete mil quilómetros das indústrias onde estes resíduos eram produzidos. O caso do rio Tejo não está aqui estudado, mas estas conclusões permitem-nos imaginar que os danos da poluição serão duradouros. É preciso agir já.

Começa a não haver desculpas para esta inércia. Acredito que faltarão meios e talvez recursos humanos suficientes, mas o que falta mesmo é organização, coragem e capacidade para minimizar os problemas e os impactos.

Não são apenas empregos, é a vida das pessoas que está em jogo. É o futuro das espécies, da nossa agricultura, da nossa pecuária, dos peixes, é parte da nossa cadeia alimentar, é a vida de muita gente que está em causa. Será que isto não é suficiente? Será que nem assim conseguimos salvar o rio Tejo?