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Expresso

Make “Europa” great again?

A eleição e postura do novo Presidente americano estão a colocar em causa a relação entre a União Europeia e o seu maior parceiro, os Estados Unidos da América. Quer no plano da economia e do comércio, quer na promoção dos direitos humanos ou nas suas alianças internacionais, apesar de todas a diferenças, os EUA têm partilhado com a UE uma agenda global com muitos pontos em comum. Os primeiros dias de Trump prometem mudar tudo isso e a UE ainda não tem uma estratégia para reagir a esta alteração da geopolítica mundial.

Envolta na incerteza provocada pelo brexit, preocupada com a incerteza das eleições francesas e com a instabilidade em Itália, inquieta com a tumultuosa situação na Ucrânia e em guerra fria com a Rússia, sem esquecer o esfriamento da relação com Turquia, esta alteração do posicionamento dos EUA e a sua aproximação à agenda “russa” vem na pior altura possível e apanha a União Europeia completamente desprevenida.

Esta viragem de Trump é a cereja em cima do bolo para a estratégia que Putin e Lavrov desenharam nos últimos anos para a Europa e para o Mundo. Vejo com muita preocupação a actual situação porque não encontro na Europa, agravada com os riscos de não reeleição de Merkel, nenhum líder com capacidade de liderar uma nova estratégia de política externa da união. Isto é ainda mais grave quando ainda recentemente a União Europeia aprovou a “Estratégia Global da União Europeia em matéria de segurança e defesa” que após as primeiras posições de Trump está já muito desactualizada.

Apesar de tudo, e tal como se esperava, o “sistema” democrático e constitucional americano está a demonstrar que Trump é o Presidente dos EUA mas não é nem o dono nem o ditador dos EUA como gostaria de ser. Além do Congresso e da Câmara dos Representantes, que de alguma forma o Presidente até pode controlar, há um sistema judicial e uma Constituição que impedem que Donald Trump possa fazer tudo o que pretende. A reversão do já famoso decreto presidencial que vetou a entrada de nacionais de sete países muçulmanos é um hino ao sistema de checks and balances da democracia americana.

A nomeação de um Embaixador altamente crítico da União Europeia é uma provocação clara aos Estados-Membros da UE. É preciso prevenir que nenhum destes países cederá em acordos bilaterais com os EUA, situação que fragiliza a unidade europeia e que já todos conhecemos de um passado recente. Importa garantir que a coesão interna do projecto europeu, já diversas vezes ameaçada pela influência russa, não sofra ainda mais com a actual postura dos EUA.

Acredito, no entanto, que se a Europa souber reagir devidamente, e como há poucos dias escreveu Vicente Jorge Silva no Público, toda esta nova situação possa contribuir para encontrar uma nova unidade europeia, para promover uma maior coesão entre os Estados-Membros na defesa dos valores europeus, como bloco regional liderante na defesa dos direitos humanos, na consolidação do modelo social europeu e na promoção da paz no mundo. Mais do que nunca, o mundo precisa hoje de uma Europa mais forte.