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Expresso

Os portugueses é que pagam as birras

Uma das razões que mais afasta os portugueses da política e que mais atrasa o desenvolvimento do país é a capacidade inata que temos para desaproveitar as coisas boas que herdamos de executivos anteriores. É por isso que reverter políticas apenas por ódio ou raiva é das coisas mais idiotas que nos podem passar pela cabeça. Tenho a certeza que era muito mais fácil e útil se houvesse maior continuidade nas políticas que tiveram sucesso, nas reformas que resolveram problemas, nas mudanças que fizeram o seu caminho. Veja-se os exemplos na educação e na ciência.

As últimas duas semanas permitiram desmistificar a tese de que um governo de esquerda se preocupa muito mais com a educação e com a ciência do que os outros. A retórica não substitui a acção e uma boa intenção nem sempre se traduz em realidade. As greves nas escolas, os primeiros protestos da FENPROF e até as primeiras intervenções "críticas" do BE e PCP vêm comprovar que o discurso do governo não corresponde à realidade que as pessoas vivem. No fundo, mudaram para pior.

As reversões feitas, em particular as 35 horas, têm hoje no terreno a confirmação de que foram uma irresponsabilidade, pois acentuaram as dificuldades das escolas porque o Ministro da Educação não acautelou a devida compensação com a contratação de novos assistentes operacionais. Isto a somar aos cortes nos orçamentos das escolas, aos enormes encargos resultados da megalomania da "festa" da Parque Escolar e as falsas expectavas criadas na contratação de professores para combater o insucesso escolar, começam a ter impacto negativo no dia a dia dos alunos e a deteriorar a qualidade da educação. Hoje, como nunca, há escolas sem aquecimento, há alunos sem aulas de educação física, há laboratórios fechados, há bibliotecas que não abrem há meses, há escolas em que os pais desempregados se preparam para substituir os funcionários em falta. Isto no século XXI e num governo cuja paixão é, supostamente, a melhoria da qualidade de vida dos portugueses e a educação.

Não bastam palavras para melhorar a vida das pessoas e a qualidade da nossa educação.

Também na Ciência ficou claro que a comunidade científica está desapontada e desiludida porque, por exemplo, o Ministro da Ciência encerrou o programa Investigador FCT, que permitiu a 800 investigadores de topo o regresso a Portugal, sem que tivesse conseguido, em tempo útil, aprovar uma alternativa capaz. Em 2016 o governo de António Costa não aprovou uma única bolsa de doutoramento ou pós doutoramento da FCT, algo inédito na nossa história recente. A somar a isto ficou claro que Manuel Heitor "vendeu gato por lebre" com o decreto-lei sobre o emprego científico, oferecendo contratos mais "estáveis" mas com uma perda de rendimento de 37% para os investigadores. As duras críticas feitas pelo Sindicato do Ensino Superior, pela Associação dos Bolseiros de Investigação e pelos Reitores deixam claro que o Governo, e em particular o Ministro da Ciência, criou expectativas que a realidade está a demonstrar que não consegue satisfazer.

A política de reversões é errada e irresponsável. O governo em funções tem toda a legitimidade para mudar, para reformar, mas era suposto que o fizesse acrescentando valor, melhorando o que encontrou e não apenas andando para trás. Esse é um caminho que só tem justificação na raiva e na irresponsabilidade que normalmente cega as pessoas.

Mudar políticas apenas por clubismo é estúpido, é irresponsável e viola o interesse nacional. As pessoas estão cansadas destas guerras constantes. Os cidadãos esperam que os governos melhorem o que está mal, mas não podem aceitar que se volte para trás apenas para satisfazer uma "mercearia" que permitiu empossar um governo diferente.

Raros são os sectores onde este governo tentou acrescentar ou manter o rumo que vinha de trás. Três desses bons exemplos serão as políticas de incentivo ao empreendedorismo e ao turismo bem como a descentralização . Olhemos friamente para os resultados que o país tem conseguido nestas três áreas e imaginemos onde chegaríamos se em todos os outros sectores fosse também assim!