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Expresso

Soares, o democrata

No domingo passado, todos os Deputados receberam um e-mail a cancelar as actividades previstas para esta segunda-feira, em particular as sessões previstas do Parlamento Jovem que este ano têm como tema a Constituição da República Portuguesa. A ideia era que os Parlamentares pudessem participar nas cerimónias de homenagem a Mário Soares. Eu estava destacado para participar numa dessas sessões no Entroncamento. Pensei no ex Presidente e em particular no seu contributo para a nossa democracia e para a Constituição. Ponderei em respeitar a "decisão" da conferência de líderes do Parlamento mas decidi discordar dessa opção. Preferi homenagear Soares à minha maneira e assim a Constituição. Entendi que a melhor homenagem que humildemente poderia fazer ao ex Presidente da República, e ao seu legado, era precisamente passar essa manhã a falar com jovens estudantes sobre a nossa democracia, sobre a nossa liberdade e sobre um dos principais responsáveis por vivermos num país livre e democrático, precisamente o Dr. Mário Soares. Foi isso que fiz e tenho a certeza que estas seis dezenas de jovens, com quem conversei toda a manhã, ficaram a conhecer um pouco melhor o papel fundamental que Mário Soares teve na nossa democracia.

Agora que partiu, a história encarregar-se-à de o julgar, de fazer justiça ao seu legado. Hoje, na hora da sua morte, é hora de homenagear o seu legado positivo, respeitar o luto da sua familia e honrar a sua memória.

Muitos vezes o critiquei, muitas vezes me irritou, dezenas de vezes me revoltou e me fez perder a calma. Tantas as vezes vim a público discordar, livremente, e muitas oportunidades me deu para o criticar duramente. Também graças a Soares o pude fazer livremente. E isso eu não esqueço.

Foram raras as oportunidades que tive de estar pessoalmente com Mário Soares mas uma delas foi especial e marcante.

Era eu Presidente da JSD quando, muito graças à sua amizade por Carlos Coelho, me deu a honra de participar como convidado na Universidade de Verão em Castelo de Vide. Estávamos em 2011. Soares foi igual a si próprio, conquistou a audiência num registo muito autêntico. Várias vezes concordou connosco, mais vezes ainda discordou de nós, mas foi de uma simpatia e respeito democrático tremendo. Nesse dia Soares foi fixe. Nesse dia muitos não perceberam porque entoámos, inesperadamente, o seu famoso slogan "Soares é fixe", mas da parte dos cem jovens que ali estavam, foi sincero. Soares foi mesmo entusiasmante, foi sincero e muito divertido. Aquele que jantou ali connosco foi um Soares diferente daquele que apenas conhecíamos da televisão.

Não é habitual um partido convidar anualmente um dirigente da "concorrência" para participar na nossa formação, mas o PSD e a JSD fazem-no todos os anos. Muitos não gostam, muitos não percebem, mas talvez seja essa uma das grandes lições de democracia que damos anualmente. Também isso aprendemos com Soares: a respeitar o adversário. Ao aceitar ir à nossa casa, Soares também nos homenageou, Soares demostrou consideração pelo nosso trabalho e respeito democrático pelos seus anfitriões.

Podemos discordar de Soares em quase tudo o que disse nos últimos anos, mas a Soares agradecemos um tremendo contributo para a nossa democracia. Em determinado momento da nossa história a sua coragem era sua visão foram decisivas para a nossa liberdade, para a nossa identidade.

Discordo frontalmente dos que hoje tentam rescrever a sua história. Mário Soares não foi um santo, mas não há dúvidas que foi um grande democrata.