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Expresso

Marcelo disse basta?

No seu primeiro discurso de Ano Novo, o Presidente da República lançou um alerta: o ano que agora começa pode ser decisivo para Portugal. O sucesso de 2017 está dependente do que o governo fizer para preparar o país para o futuro mas também da capacidade que Portugal tiver para se defender da instabilidade que pode vir do exterior.

No entanto, é notório que o início deste novo ano representa, para a maioria dos portugueses, um aumento do seu custo de vida. Aumentam os impostos sobre combustíveis e a electricidade, aumentam os impostos nos refrigerantes, nos veículos, nas rendas das casas, aumentam as portagens, entre muitos outros aumentos. São diversas as "taxas e taxinhas" que vão ter impactos reais no custo de vida de milhões de portugueses, num ano de grande incerteza e de risco para Europa e para o resto do mundo.

O nosso Presidente da República sabe bem isso e talvez por esse motivo ouvimos, provavelmente, o primeiro discurso deste Presidente que é um verdadeiro aviso à governação. Disse Marcelo que o crescimento económico é fundamental para o país, é essencial para consolidar as reformas já feitas e para recuperar o ímpeto reformista que o país já conheceu.

Ora, a situação internacional não promete facilidades e todos sabemos que o que acontecer lá fora pode ter impactos cá dentro. É por isso que defendo que a única opção de Portugal passa por estarmos mais preparados para responder positiva e proactivamente às consequências das ameaças externas. Não nos podemos sujeitar a voltar a estar à mercê de ameaças que podem ser fatais.

Se para o Presidente Marcelo, 2016 foi um ano de desanuviamento, de descompressão, onde o Governo pôde cumprir parte das promessas feitas no acordo de coligação, a verdade é que neste discurso o Presidente admitiu que a receita para o crescimento falhou e que Portugal andou para trás, que o investimento público é o mais baixo das últimas décadas e que o consumo não aumentou como prometido.

Marcelo quer mais e o Presidente exige muito melhor. Segundo as palavras do Presidente, é tempo de repensar toda a estratégia económica do país e de dizer basta a este caminho que não nos leva a lugar nenhum.

Marcelo Rebelo de Sousa lembrou também ao Primeiro-Ministro, de forma suave e até bastante elegante, que até o governo PSD/CDS em austeridade conseguiu um crescimento económico superior ao da actual coligação. O Presidente da República não disse exactamente o que sublinhei, mas politicamente foi essa a mensagem que julgo que pretendeu passar.

Marcelo disse basta. A actual "geringonça" fingiu que não percebeu. Há muitas reformas por fazer e não basta à coligação de esquerda fazer oposição ao legado do executivo anterior. Como o Presidente e todos os portugueses bem sabem, foi esta a receita que nos levou à pré-bancarrota.

Infelizmente, os tempos que se avizinham na Europa e no Mundo não são fáceis. A incerteza e o risco da economia internacional são enormes. A nova situação política que resulta da aliança Trump-Putin não nos augura nada bom e se há coisa que tem reflexo na economia é a imprevisibilidade. A situação no Médio Oriente está cada vez mais um caos e isso tem impactos no preço do petróleo.

Na Europa a situação não é muito melhor. O Brexit cria inúmeras incertezas, as diferentes eleições em países europeus provocam ansiedade pela ameaça dos movimentos populistas e anti-europeus e, apesar dos esforços do BCE na zona Euro, a confiança na economia não há meio de perdurar e estabilizar.

Marcelo sabe que em 2017 as ameaças ao nosso sucesso são sérias e que não é altura para Portugal correr riscos desnecessários.

O nosso Presidente sabe que a sua popularidade lhe garante a confiança da esmagadora maioria dos portugueses, mas sabe também que se o país falhar, a responsabilidade também é sua. Pelo que, penso que Marcelo não quererá ser o "padrinho" de um governo populista e irresponsável. Acima de tudo Marcelo é um estadista. Diria melhor, Marcelo é naturalmente popular e é isso que lhe dá força suficiente para ser um estadista e o líder da nação.

Como tal, Marcelo tem hoje as ferramentas necessárias para "impôr" ao governo a agenda que desejar. Neste novo ano, António Costa e o seu governo têm agora dois caminhos: ou ouvem os conselhos do Presidente; ou podem contar com a "oposição" de Belém.

Perante a situação internacional, era mais avisado que Portugal tivesse uma governação mais sustentada, a pensar no médio prazo, que se protegesse face às graves ameaças que podem voltar a por a nu as nossas fragilidades.

Em 2017, o PSD continuará a liderar a oposição, fará os alertas que considerar pertinentes, apresentando sempre políticas alternativas, procurando o consenso em matérias de especial interesse nacional e lutará para conseguir vencer mais autarquias do que nas últimas eleições autárquicas. Internamente deverá aproveitar este ano para se reformar e modernizar, para se abrir ainda mais à sociedade, mas também para reflectir sobre que políticas de futuro tem para oferecer aos portugueses.

Quanto ao governo, veremos o que fará em 2017, se continuará apenas a tentar sobreviver politicamente, ou se aproveitará a sua maioria, o apoio do Presidente e a responsabilidade da actual oposição para fazer as reformas que o país tanto precisa.

É tempo de dizer basta aos caprichos e à irresponsabilidade.