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Expresso

Opinião sem cerimónia

As mentiras não alteram a realidade

O recente episódio com Augusto Santos Silva, que equiparou a Concertação Social a uma "feira de gado", é a cereja em cima do bolo de um conjunto de situações, atitudes e decisões que demonstram que a um governo de esquerda quase tudo é permitido. Mas, por mais que tente, a máquina de propaganda do governo não altera a realidade.

A comparação da Concertação Social a uma "feira de gado" é lamentável, revela falta de respeito e falta de nível mas não será o mais grave para a vida dos portugueses. Há coisas bem mais danosas da autoria deste governo que colocam em causa o nosso futuro colectivo.

Há hoje escolas que ameaçam não abrir as portas em janeiro de 2017 por falta de condições, há escolas com bibliotecas, ginásios e laboratórios fechados por falta de funcionários.

Há hoje milhares de famílias carenciadas que aguardam que o mesmo o governo que distribuiu livros gratuitamente aos alunos (ricos ou pobres) do ensino básico lhes reembolse, como habitualmente, as despesas que já fizeram com livros escolares (dos restantes anos) através da acção social escolar. Nunca isto aconteceu num passado recente.

Há hoje milhares de estudantes que ainda não receberam as bolsas de acção social escolar porque o governo voltou ao antigamente e não pagou a maioria das bolsas atempadamente.

Há hoje cerca de 5 mil bolseiros de investigação científica que não têm bolsa porque pela primeira vez, pelo menos nos últimos dez anos, um governo não conseguiu aprovar e finalizar um concurso anual de bolsas de investigação.

Há hoje dezenas de corporações de bombeiros com ambulâncias paradas, salários em atraso ou que não puderam pagar o subsídio de Natal aos seus colaboradores porque os Ministérios da Saúde e da Administração Interna não lhes pagaram atempadamente os serviços prestados.

Há hoje milhares de empresas portuguesas que passam por dificuldades porque os mais diversos serviços públicos, hospitais, escolas, instituições, estão a demorar o dobro do tempo a pagar o que lhes devem.

Há hoje milhares de empresas e instituições, privadas e públicas, que aguardam por receber as verbas do QREN e do PT2020 porque este governo decidiu fazer propaganda contra a governação anterior em vez de continuar a gerir o processo com normalidade.

Há hoje dezenas de instituições sociais e empresas que aguardam o pagamento ou aprovação de contratos de incentivo à contratação de desempregados porque o IEFP ou não paga o que deve ou não aprova novos acordos.

Há hoje hospitais públicos que negam exames porque os equipamentos não têm manutenção ou simplesmente porque os custos são altos, há consultas à chuva, há doentes que ficam dois dias sem alimentação e medicamentos e isso não já não coloca em causa o Serviço Nacional de Saúde.

Já para não falar nas trapalhadas na CGD, nas famosas viagens da Galp, no escândalo que envolveu o Ministro da Educação com a sua bolsa ou as falsas declarações sobre as licenciaturas de vários assessores deste governo.

A lista é longa e poderia continuar por mais algumas páginas. A verdade é que os habituais agitadores sociais estão hoje calados, estão hoje comprometidos e ao serviço da "geringonça" para tentar disfarçar os erros, as meias verdades e mentiras do actual governo.

A máquina de propaganda do governo é eficaz, demolidora e pouco séria. Disfarça os erros dos governantes, cria distrações na agenda mediática, tem a retórica politicamente correcta e um conjunto de acólitos que faz os fretes necessários no comentário e na blogosfera. Juntos alimentam a pós-verdade porque a verdade diria que afinal os 4 anos de PSD/CDS não foram tão maus como muitos destes foram dizendo entre 2011 e 2015. Muitos estão comprometidos ou sequestrados pela propaganda que fizeram ao longo dos últimos anos.

A mensagem de Natal do Primeiro-Ministro é apenas de pura hipocrisia política. Os dados recentes revelam que a qualidade da educação evoluiu bastante nos últimos 15 anos e o actual ministro está a reverter as políticas que o permitiram. Tiago B Rodrigues está a reverter políticas não só de Nuno Crato mas também de Maria de Lurdes Rodrigues ou David Justino apenas e só porque se deixou sequestrar politicamente pelo PCP, BE e Mário Nogueira.

Os dados mais recentes, em particular o índice da redução da desigualdade divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística relativo a 2014 e 2015 e o coeficiente de GINI (http://www.dn.pt/portugal/interior/risco-de-pobreza-baixou-em-portugal-mas-ainda-atinge-quase-dois-milhoes-5554062.html)

vieram comprovar que as políticas do anterior executivo afinal reduziram as desigualdades em Portugal.

O Governo de António Costa guarda na gaveta, ou adia há vários meses, a apresentação de um relatório da OCDE que revela que as reformas nas políticas laborais levadas a cabo entre 2012 e 2015 contribuíram profundamente para a recuperação do emprego em Portugal.

Estes três sectores mencionados por António Costa na mensagem de Natal são precisamente aqueles em que os dados oficiais mais recentes comprovam que o discurso da esquerda dos últimos cinco anos estava errado. Governo e parceiros de coligação não aceitam a realidade porque isso significaria reconhecer a competência de quem os antecedeu e confessar o discurso irrealista que sempre fizeram na oposição e que agora fazem no governo.

Seria mais honesto se a esquerda, quando está na oposição, não se limitasse a seguir uma cartilha populista. Mas, se não fosse pedir demais, bom era que quando a esquerda está no poder não se limitasse a reverter ou a destruir as reformas e avanços que o país entretanto alcançou.

Espero, sinceramente, que 2017 seja bem diferente.