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Expresso

Uma andorinha não faz a primavera

António Guterres prestou ontem juramento como Secretário-Geral das Nações Unidas. Para todos os que temos um percurso ou uma agenda que partilha das causas e dos objetivos da Carta das Nações Unidas, ver um português a chegar ao topo desta organização é motivo de um orgulho muito especial, de uma alegria profunda e de uma enorme emoção.

A missão é terrível, a agenda é dificílima e o contexto é uma desgraça. Há vários anos que a agenda que se apresenta a um novo Secretário-Geral não era tão complexa, o cenário tão medonho e os alinhamentos tão imprevisíveis.

As ameaças ao sucesso de António Guterres são tão grandes como as oportunidades que tem à sua frente. Mas há tanto por e para fazer que seria injusto dizer que neste caminho só haverá dificuldades. António Guterres encontra uma estrutura profissional, bem preparada e que recentemente foi alvo de uma restruturação profunda.

Guterres conhece a casa, reconhece o terreno e parece ter a arte e o engenho para conseguir congregar esforços em torno de soluções eficazes para os principais conflitos que o mundo atravessa. Ao Secretário-Geral das Nações Unidas cabe não só gerir esta grande casa, fazer cumprir as missões da ONU, mas cabe-lhe também liderar e influenciar a agenda e o rumo da política internacional.

No mundo mediático em que vivemos associado à conflitualidade latente entre as várias potências regionais, sem esquecer os surpreendentes alinhamentos que temos vindo a conhecer, a experiência e cultura política do ex Primeiro-Ministro português pode ser determinante para o seu sucesso.

António Guterres tem a responsabilidade de fazer pontes e negociar posições entre os Estados, usar os seus bons ofícios para evitar ou resolver conflitos. Mas se parte do seu sucesso será fruto da sua discrição e da sua capacidade de diálogo, o seu legado será marcado e reconhecido pela capacidade que tiver, em determinados momentos, de dar o murro na mesa, de dar o grito de alerta, de usar o seu estatuto e coragem para forçar as potências a seguir o caminho correto.

Recordo-me de ouvir dizer João Galamba, num debate que fizemos na SIC N, que “os defeitos normalmente apontados a António Guterres como Primeiro-Ministro”, muito dialogante, brando e demasiada focado na negociação, entre outros, são precisamente “as qualidades necessárias para o cargo de SG da ONU”. Esta foi uma das raras vezes em que estive de acordo com o porta-voz do PS e julgo que, é indiscutível que Galamba tem toda a razão no que afirmou se a isso somarmos as qualidades que nunca ninguém, mesmo os mais críticos da sua governação por cá, deixaram de reconhecer a Guterres: inteligência, honestidade e capacidade política.

Só o tempo e a história farão o devido juízo sobre o legado que Guterres deixará um dia nas Nações Unidas, mas como em qualquer grande organização de Estados, como a União Europeia ou a ONU, uma andorinha não faz a primavera. O sucesso deste mandato terá sim o dedo do Secretário-Geral, mas dependerá muito mais daquilo que as Nações de todo o mundo estiverem dispostas a fazer pela paz, pelo combate à pobreza, pelo desenvolvimento sustentável e pela defesa dos direitos humanos.

A terminar este texto, deixo uma espécie de agradecimento a quatro portugueses que marcaram, marcam e marcarão sempre a minha “relação” com as Nações Unidas: Mónica Ferro, a “minha Super Professora” de Nações Unidas, a portuguesa que melhor defende por cá os valores da ONU; Paula Escarameia, a referência para qualquer iscspiano que teve o privilégio de ouvir falar com paixão sobre os direitos humanos; Sónia Neto, a “Senhora Nações Unidas” em Timor Leste e em Bruxelas; e, last but not the least Vitor Angelo, um português excelentíssimo que liderou algumas das maiores e mais importantes missões da ONU no terreno e com quem tive o prazer de, a determinada altura e em pouco mais de uma hora, conversar e apreender sobre a realidade das missões das Nações Unidas no terreno. Nesse dia quis partir e seguir o seu exemplo. Até hoje não calhou, mas espero que um dia isso venha a acontecer.