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Expresso

Contras as siglas marchar, marchar

Ao longo das últimas semanas, notei a adoção por parte de alguns partidos e sindicatos de um novo léxico político sempre e quando estão em causa falhas do Governo ou da administração pública. Parece que os erros, falhas e problemas deixaram de ser da responsabilidade do Governo e passaram directamente para a "tutela" das Direções-gerais e Institutos. Este é mais uma ramificação da estratégia de desresponsabilização e de branqueamento a que este governo já nos vem habituando, mas é também, e sobretudo, uma forma de expiar os erros e aliviar a consciência dos partidos que apoiam o executivo.

Até há um ano, quando era cometido qualquer erro, voluntário ou involuntário, fosse por parte de um auxiliar da escola ou professor, ou de qualquer outra causa como uma gota de água da chuva que aterra na mesa de um aluno ou um buraco na vedação da escola, ou se até mesmo a sopa do almoço da cantina chegasse fria à mesa, a responsabilidade era clara e obviamente do Ministro da Educação. A culpa era também da austeridade, da troika ou do primeiro-ministro.

Hoje a situação é bem diferente. Podem até existir bibliotecas fechadas, dívidas a escolas, pavilhões gimnodesportivos encerrados, falta de material nas escolas, falta de funcionários, falta de professores ou de técnicos de educação especial, que os partidos que anteriormente tanto se indignavam com o governo, agora culpam a DGESTE. Sim, a DGESTE. Nunca ouviram falar? Agora a culpa é sempre da DGESTE ou da DGAE. Também não conhecem? Então a DGESTE e a DGAE são as principais Direções-gerais do Ministério da Educação.

Em muitas outras áreas passa-se algo semelhante. A mesma estratégia, a mesma tentativa de desresponsabilização e de branqueamento.

No que diz respeito aos atrasos nos reembolsos do IRS, estes não foram uma forma que o Governo encontrou para ter mais disponibilidades em “caixa” ou sequer incompetência do Ministro das Finanças, foram, segundo os partidos do governo, atrasos normais e da responsabilidade da AT. Sim, a AT. Talvez esta reconheçam como a Autoridade Tributária.

Relativamente aos atrasos nos pagamentos quer dos programas de inserção e emprego, quer dos estágios ou incentivos à contratação, a culpa já não é do Ministro do Trabalho ou do Secretário de Estado do Emprego. A culpa é do IEFP.

Também os problemas do sector da saúde deixaram de ser responsabilidade do Ministro da Saúde pois "passaram" para a tutela “da ARS” ou “da ACSS”. Não conhecem?

E no sector dos transportes, os problemas da bilhética, os atrasos no metro e na Carris, já não são responsabilidade do Ministro e foram "teletransportados" para a tutela da empresa de bilhética cujo nome ninguém conhece.

Já os atrasos no apoio ao cinema são hoje perfeitamente aceitáveis, deixaram de ser indignos e claro, não são culpa do Ministro da Cultura. Neste caso culpa é do ICA. Sim, do ICA, não conhecem?

Outro truque bastante utilizado na discussão do OE foi a “rebeldia local”. Assistimos a um verdadeiro corrupio de deputados do PCP, BE e até alguns do PS, a dizerem “Amén” ao OE2017, a votarem a favor, mas a ir às últimas rondas das audições sectoriais revelar a sua mais firme indignação pelo não aumento do investimento para a Universidade do Algarve ou de Évora, por continuarem a existir portagens na Via do Infante ou a protestar pela falta de médicos em Freixo de Espada à Cinta. Ou seja, foram ao plenário gravar o seu “videozinho” de indignação, mas logo de seguida assumiram a mais convicta genuflexão com o voto favorável do orçamento.

O embaraço do PCP e BE perante a incompetência deste governo, que se estava a tornar demasiado óbvio em diversos sectores da administração pública, tornou-se tão incómodo perante as suas bases que os seus Deputados se viram obrigados a sair das trincheiras para criticar "delicadamente" alguns assuntos durante a discussão do OE2017. Acontece que, quando o fizeram, foi de forma bastante habilidosa, para não dizer cobarde, sendo que as suas farpas foram dirigidas apenas a siglas e a direções-gerais.

É também curioso notar que quando a culpa não pertence ou encaixa em nenhuma destas siglas, então deve-se, apenas e só, ao anterior governo, à maldita coligação PSD/CDS, à União Europeia e à troika.

Para o PS, BE e PCP o país não tem passado anterior a 2011 mas, pelo caminho que nos levam, duvido que tenha futuro após esta governação.