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Expresso

Geringonça: a bulldozer que atropelou a economia

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Todos nos lembramos de ouvir a esquerda portuguesa aos gritos contra a falta de investimento por parte do governo anterior, e apesar do baixo investimento público e da inevitável austeridade, o PIB ia crescendo, pasme-se, a 1,5%. Não deixa, por isso, de ser espantosa a mansidão do Bloco de Esquerda, PCP e Partido Socialista face à brutal queda do investimento público em Portugal, mas sobretudo pela falta de crescimento da nossa economia. Estão uns verdadeiros “mansos” e o governo de esquerda é que, afinal, acaba por ir mais longe do que troika ao congelar o investimento.

Bloco de Esquerda, PCP e PS, trocaram o seu discurso por um prato de lentilhas, vergonhosamente enfiam a cabeça na areia, queimam anos de discurso, promessas e demagogia são hoje verdadeiras cinzas face ao desastre económico da solução de governo que apoiam. Todos os dias são conhecidos novos adiamentos de investimentos previstos, atirados para 2017, 2018 ou 2020, obras que passaram de certezas a promessas, porque a estratégia do governo falhou e é preciso maquilhar o défice e a execução orçamental. Como atempadamente dissemos, não havia necessidade de trocar a certeza pelo populismo e o resultado está à vista.

Ao fim de quase um ano do “milagre das esquerdas”, temos mais austeridade do que a prevista pela troika, temos ainda menos investimento do que há dois, três e quatro anos, mas temos sobretudo um país que deixou de crescer, que deixou de recuperar e que começou a andar para trás.

A forma leviana como o Bloco de Esquerda e o PCP atiraram para o lixo as suas principais bandeiras, como esqueceram os seus valores éticos e morais, mas sobretudo a forma como o Partido Socialista e os seus dirigentes “lavaram” as mãos do cenário macroeconómico de Mário Centeno e de outros dez brilhantes economistas do PS, sem um mea culpa, um reconhecimento do falhanço ou qualquer reconhecimento de responsabilidade, diz muito da forma oportunista como estas pessoas estão no governo e exercem o poder. A pequena mentira, a discreta omissão ou a frequente desonestidade intelectual de muitos dos seus dirigentes, são truques de um cardápio que tenta fazer passar este governo entre os pingos da chuva de falhanço atrás de falhanço.

Se Catarina Martins já veio revelar o seu arrependimento, se João Galamba já confessou que as metas do Governo eram impossíveis de atingir, foi agora o Deputado do BE, José Manuel Pureza, que veio dar razão ao que o PSD disse há 8 meses atrás: o acordo com as esquerdas é impossível de cumprir respeitando os compromissos europeus. De quem vai ser a culpa? António Costa, que era bem conhecedor dessas regras antes do acordo com as esquerdas, não hesitará em passar para Bruxelas a responsabilidade pelo fracasso das suas políticas e do seu acordo com BE e PCP. Veremos se, à semelhança do que é seu timbre, o Primeiro-Ministro irá conseguir dizer que a culpa do seu falhanço se deve a Passos Coelho e ao PSD. Como é hábito, todos menos António Costa terão a sua responsabilidade.

Estágios: separar o trigo do joio

Mas esta semana ficou também marcada pela denúncia dos empresários que utilizam o sistema de incentivo de estágios para robustecer a sua própria conta bancária roubando verbas a que os estagiários têm direito, numa clara situação de “extorsão” que não pode ficar impune. Graças a uma corajosa denúncia do Conselho Nacional de Juventude, e do seu Presidente Hugo Carvalho,

que apanhou desprevenida a CGTP, a UTG, as confederações patronais e o governo, hoje será possível devolver direitos aos jovens e punir os criminosos.

O IEFP veio dizer que desconhecia e situação e ordenou de imediato uma auditoria interna. Ora, tudo errado, tudo ao contrário. Nesta fase é sobretudo necessário separar o trigo do joio. Nos estágios, como em outros programas de apoio dos governos, há sempre quem prevarique, há sempre os chicos-espertos do costume que tentam tirar partido destas vantagens violando a lei e as regras. O caminho a seguir, por parte das autoridades e da opinião pública não pode ser criticar o sistema de estágios, os empresários que aproveitam os estágios e os jovens que deles beneficiam.

O que faz falta não é uma auditoria interna, mas sim uma auditoria externa, contactar os estagiários para saber se há mais casos semelhantes, investigar a fundo as denúncias e saber se há mais jovens vítimas de “extorsão”, se há mais empresários sem escrúpulos. Tenho a certeza que serão uma minoria face aos milhares que usaram com sucesso, para todos, o programa de estágios para jovens (só em 2015 forma mais de 70 mil), mas essa “auditoria” deve ser feita.

Jamais esta situação poderá também servir de desculpa para acabar com o programa ou cortar as verbas previstas para um programa de estágios como o atual, programa este que tem criado oportunidades de formação e de emprego para milhares de jovens portugueses ao longo dos últimos anos. Inaceitável é o atual governo ter em cima da mesa uma alteração que irá reduzir a duração dos estágios de 9 para 6 meses, o que na minha opinião e face à experiência existente é errado e reduz as oportunidades de criação de emprego.

Um estágio não é um emprego, é um complemento de formação e uma verdadeira oportunidade para a criação de um emprego.